—Imaginem que estive doente—acudiu Carlos, tentando desviar a conversa da direcção que este seu amigo lhe dera.
—Rejeitada a explicação por maioria—bradou um rapaz louro e de modos feminis, typo de Apollo de cake, cartaz vivo de cabelleireiros e alfaiates, ageitando ao espelho as complicadas madeixas de um cabello monumental.
—Por unanimidade—bradaram mais dois.
—Adopto-a eu—contradictou um occupado a despejar quantas gavetas encontrava, á procura de lumes para accender o charuto.—Carlos está doente, mas… do coração… Pois que é o amor?
—Ah nhe d'amore La fiamma io sento
trauteou o do toucador, cantando a aria de Rosina.
—A tua alma está doente, Carlos—sentenciou um estudante de medicina, que era tido na conta de espirituoso.—E essa pathologia é a minha especialidade.
—Que falle a sciencia então; que falle a sciencia—exclamaram alguns.
O estudante sentou-se ao lado de Carlos, revestiu-se de um ar de gravidade doutoral, e tomando-lhe'o pulso, principiou:
—A alma padece de mui variadas fórmas. Temos os pruridos da duvida, doença chronica nos philosophos que procuram a certeza; hypertrophias de crenças, mal frequente aos vinte annos; aneurismas de aspirações, muito vulgares em bachareis formados; ictericias de desespêro, nos chefes de familia numerosa; fracturas de caracter, nos homens politicos; luxações de senso commum, nos poetas; paralysias de ociosidade, nos empregados publicos; dyspepsias de indignação, nos contribuintes; noli me tangere de susceptibilidades, nos deputados fluctuantes; convulsões de enthusiasmo, em afilhados de ministros; marasmos de desalento, em pretendentes sem protecção; cancros de exigencias, em diplomatas indispensaveis; epilepsias de ciumes, nos maridos; e as cataractas do amor, em…