Por isso, como se no limitado espaço do quarto abafasse, Carlos levantou-se para saír.

Transpunha já a porta, que abria do quarto para o jardim, quando o estalar da areia sob o pizo leve de alguem que caminhava na rua proxima, lhe fez desviar a cabeça.

Por pouco lhe escapava dos labios uma exclamação de prazer.

Era Cecilia.

Esta inesperada apparição vinha tão completamente realisar os secretos e vagos desejos, que o estavam agitando; parecia tanto ser o mysterioso effeito das evocações do proprio coração, que—illusões só concebidas por quem já assim as sentiu alguma vez—Carlos quasi acreditou ser verdadeiro milagre de amor a presença de Cecilia, alli, n'aquelle momento. E tanto se convenceu d'isso, que nem tentou dissimular o que estava sentindo. Viu-a e persuadiu-se de que viera ao appêllo, que elle lhe dirigira, de que a leitura da carta bastára para a determinar, de que, cheia de confiança, vinha para dizer-lhe que aceitava a homenagem do amor, que elle lhe offerecia, e o pagava com o seu.

Dominado por este pensamento, do qual rirá sómente o leitor, que tenha já passado os quarenta annos, Carlos estendeu a mão tremula para a pobre rapariga que, mais tremula ainda, o fitava, e murmurou:

—Oh! obrigado, Cecília; obrigado por ter vindo!

Cecilia olhava-o admirada; não comprehendia ou receiava comprehender demasiado o sentido d'aquellas palavras.

—Agora ouça-me, ouça-me por piedade, Cecilia; quero dizer-lhe tudo o que em mim se tem passado desde que pela primeira vez a encontrei; ouça…

E naturalmente Carlos conservava entre as suas a mão de Cecilia, e esta, como surprendida ainda pela subita scena que estava bem longe de esperar, parecia haver perdido a consciencia do que se passava, e nem tentava retirar-se.