—Será; mas olhe que não fui eu só que desconfiei.

—Era preciso ser muito infame para abusar assim da confiança de um homem velho, honrado e doente… Não; nem Carlos nem Cecilia entrariam n'essa indigna combinação!…

—Eu não digo que fosse combinação de ambos; tanto não digo eu; mas emfim… além de mim, houve quem pensasse…

—Isso sei eu; e cá recebi o golpe. A carta anonyma não deixou de me chegar ás mãos. Mostrei-a a Carlos; e saiba então que foi elle, elle proprio, que resolveu não voltar cá mais.

—Ai, sim? pois essa não sabia eu! Agora é que vejo de que casta elle é. Então quer que lhe diga? Depois que elle deixou de cá vir, uma noite ouvi correr o fecho da porta do quintal.

Era noite de luar; ainda estava a pé e espreitei á janella. A menina descia a escada do pateo.

Manoel Quentino olhava para a criada com o gesto desfigurado, e a respiração quasi suspensa.

—E depois?

—Deu-me uma pancada no coração e fui, pé ante pé, pelas escadas abaixo. Cheguei ao quintal. A menina estava á janella de grades e fallava para a rua com alguem. Com mêdo de ser vista não pude chegar-me perto e não ouvi o que diziam. Fui dar a volta, pelo lado dos limoeiros, d'onde podia ouvir melhor, mas, quando cheguei, ia a menina embora. Fui á janella, e lá o vi a elle…

—Mente! mulher! você tem estado a mentir desalmadamente!