—Vamos, Cecilia; não me olhe d'essa maneira. Quem lhe ensinou a desconfiar assim? Com quem aprendeu esses modos de sorrir, tão pouco da sua idade?

Cecilia baixou, silenciosa, a cabeça.

—Convencida de que se passavam cousas novas no coração de meu irmão…

—E convenceu-se d'isso?

—Convenci. Não eram os antigos caprichos, muito meus conhecidos. Não eram aquellas phantasias, que tão bem se davam com os seus habitos de vida, que nem o obrigavam a alteral-os.

—Não eram?

—Não. Com grande espanto meu, vi-o mudar. Fez voluntariamente o que nem os meus rogos…—pois eu creio que bem vontade teria de me satisfazer—o que nem os meus rogos haviam conseguido. Desde que o percebi, desde que assim o vi tão outro do que sempre fora, mudei tambem de pensar. O meu unico fim, Cecilia, creia, era a felicidade de Carlos e a sua. Emquanto julguei que ella estava no esquecimento a tempo, trabalhei por apressal-o; desde que me convenci de que este esquecimento era impossivel, desde que me convenci de que não era n'elle que estava a felicidade… então… voltei os esforços em direcção diversa.

Tocou a campainha, annunciando o jantar.

Os dois inglezes, tão insensiveis ao escandalo musical perpetrado por Mr. Richard, estremeceram agora á voz do instrumento, tocado pela desembaraçada mão do escudeiro na sala do jantar.

—Para a mesa!—exclamou Mr. Richard, deixando em paz o piano—Não temos a esperar por ninguem.