—Charles tem excellente coração, como sabe; mas uma cabeça!… Sem o querer, é o motivo de continuados desgostos em casa. Ahi está que se dá agora com elle um facto, bem singular, que é a causa da minha tristeza.
E Jenny principiou a contar a Manoel Quentino a historia do relogio, o desgosto de Mr. Richard, a insistencia de Carlos em occultar as razões que o moveram áquella venda, razões que elle se limitava a affirmar não serem vis.
—Mas que quer?—proseguia Jenny—quem o acreditará? Eu e mais ninguem. O conceito que geralmente fazem de meu irmão, não lhe serve de fiança valiosa. Isto tem feito existir entre Charles e o pae, ha já muitos dias, uma frieza… mais do que frieza, uma quasi hostilidade, que me afflige. Se soubesse, Manoel Quentino, o que tenho chorado por causa d'elles!…
Jenny que, como dissemos, fallava agora em inglez e como quem não receiava que alguem mais a comprehendesse na sala, lançava de quando em quando olhares furtivos para Paulo e via-o mudar de cor, passar de pallido a córado, empallidecer de novo, córar outra vez, emquanto mal segurava na mão tremula a penna, com que escrevia.
Jenny seguia com prazer todos estes signaes, e por elles conjecturava que estava sendo entendida.
—Verduras!—disse Manoel Quentino, procurando desculpar Carlos.
—Que importa que o sejam? São motivo bastante para nos fazer soffrer a todos.
Jenny insistiu muito n'isto, exagerou as côres sombrias com que pintou o horizonte domestico. N'isto fallava ainda, quando Mr. Richard entrou no escriptorio. Jenny receiou que qualquer pergunta d'elle inutilisasse todo o artificio, e por isso correu ao encontro do pae e, fingindo abraçal-o, disse-lhe ao ouvido:
—Não se refira a nada do que ha pouco lhe disse e demore-se aqui no escriptorio.
Mr. Richard fez, sorrindo, um signal de assentimento.