O velho parecia hesitar ainda entre a alegria da nova e não sei que amargo pensamento, que teimava em enlutal-a.

—É de certo á influencia d'este anjo—disse Cecilia, designando
Jenny—que devemos esta ventura.

O guarda-livros olhou tambem para Jenny, e, com certa perturbação de voz mal disfarçada, perguntou-lhe:

—Miss Jenny, a que serviços devo eu uma tão generosa recompensa?

—Serão poucos os de dezoito annos de fidelidade, Manoel Quentino? Vamos—continuou sorrindo—querem ver que nos sáe um desconfiado? Asseguro-lhe eu, Jenny—continuou com voz firme e grave, porque julgou divisar um raio de desconfiança no olhar de Manoel Quentino—-asseguro-lhe eu, que vi escrever essa carta e que beijei, reconhecida, a mão que a escreveu, asseguro-lhe que póde e que deve aceitar a mercê—se mercê se póde chamar—com a certeza de que a obteve por nobres e reaes serviços.

Estas palavras desarmaram Manoel Quentino. Todas as sombras suscitadas pela leitura se desfizeram.

Havia-lhe de facto occorrido, que lhe queriam compensar d'aquella maneira as tenções, menos leaes, de Carlos para com a filha, e, com esta ideia, o orgulho e o despeito, mal sopeados ainda, revoltaram-se-lhe no coração outra vez.

Mas o conceito, em que tinha Jenny, não lhe deixava supportar estes escrupulos, desde que por ella os via condemnados.

Agora porém era Cecilia a que ficava pensativa.

Passada a primeira expansão de alegria, que a felicidade do pae lhe despertára, acudiu a reflexão a fazel-a meditar sobre as tenções de Jenny.