Tónio! «Manel»! Nosso-Senhor castiga-vos!... Por Deus! Ai, Jesus!
TÓNIO, cedendo:
O que te vale...[{161}]
Sentam-se ambos, calados, tacitumos, a distância. MARIA JOANA fita um momento o grupo. Respira profundamente, desolada. Entra depois no quarto do doente, cabisbaixa, cambaliante.
Grande silêncio!
Súbito, um grito, depois outro,—lancinantes, desesperados, dentro do quarto. Os dois irmãos levantam-se apavorados.
MARIA JOANA, à porta, num paroxismo:
O pai! o pai!... Morto! (volta como louca à cabeceira do cadaver).
TÓNIO precipita-se tambem desvairado no quarto do pai, atrás da irmã. Continuam os gritos. MANOEL tem uns segundos de perplexidade, olha em redor, hesita, vai, corre para o arcaz; abre-o, mergulha o braço nervosamente no fundo; tira tudo,—roupas, farrapos, misérias, remeche,—procura, encontra emfim o que ambiciona: a bolsa com as vinte moedas!
TÓNIO, que entra desgrenhado, percebe tudo, exclama:
Ah, tratante! ah, ladrão!... Agora é que tu queres roubar a tua irmã![{162}]
Atira-se a êle. Trava-se uma luta entre os dois, encarniçada: qual de baixo, qual de cima, com as garras, com os dentes—como dois liões!