Tenho, portanto, actualmente (1906) trinta e dois anos.

A minha vila fica entre serras, na vertente dum vale, e o calor ali aperta sempre muito.

Naquele verão sobretudo (eu não sei se os senhores estão bem lembrados) no verão a que se referem êstes acontecimentos, mal se respirava. As fontes secaram; a vegetação, sequiosa, sufocava sob ardentes nuvens[{40}] de poeira, e as pedras nos caminhos quase estalavam com o sol.

Horrível!

Ha quatro mêses que não chovia. Moviam-se préces ao Altíssimo, celebravam-se procissões, missas—ad petendam pluviam—mas do céu afogueado e sêco... nem pinga!

Cumulus de trovoada, no horisonte longínquo, relampejavam em noites caladas, logo desaparecendo varridos dum bafo môrno de canículas.

Dizia-se, farejando as alturas:

—Isto é que vai ser! isto é que vai ser!

Os dias sucediam-se no emtanto ronceiros, bocejados, com um firmamento implacável, de bronze, e a aflição da terra calcinada e triste.

O termómetro de Anselmo continuava a marcar muitos graus. Êste Anselmo, farmaceutico, grande influente político na localidade, era com efeito uma figura curiosa e típica. Inteligente, astuto, conhecido árbitro em questões de pêso, dava as leis e orientava a mentalidade sertanêja da vilota.