Mesmo os mais orgulhosos e independentes,[{41}] senhores do seu nariz, sofriam a sugestão infalível daquela poderosa vontade.

—Ali, na Turquia...—dizia por exemplo êle.

E tinha a gente a impressão de que a Turquia era ali mesmo, a dois passos, que podiamos lá chegar se quiséssemos,—a pé!

Anselmo todavia nunca viajára. Perdão! foi uma vez a Lisboa por três dias, e viu a Galvâni no Coliseu.

—Que tal? perguntaram-lhe, quando voltou.

—Um rouxinol!

Já essa noite no club, o fidalgo da Véla, homem na verdade muito entendido de música, recomendava:

—-É preciso ir a Lisboa... à Galvâni. Diz o Anselmo que é um rouxinol.

Geradas nas bitesgas do seu cérebro e reveladas depois a um círculo de amigos no cantinho da farmácia, as suas ideias extravasavam cá por fóra, caudalosas, engrossando, impondo-se, fazendo opinião. Alvitre que trouxesse marca de tão abalisada procedência, dava sempre[{42}] coisa que se visse, convertia-se logo em rialidade: fôsse uma árvore, um baile, o itenerário num cortejo, um espectáculo—um urinol.

Casado, sem filhos (e sem esperanças já agora de os fabricar) Anselmo professava pela espôsa um amor e um respeito inconcebíveis. Se alguêm diante dêle referisse factos menos edificantes ou alarmasse a assistência com a nova dalgum moderno escandalo em supuração, comentava ruborisado e colérico: