O filho mais velho do caseiro fôra a Moimenta pelos jornais e por tabaco, e a encomendar[{68}] a carne do dia imediato, que era dia de matança na vila.
Não devia tardar.
D. Ermelinda arranjára a ceia: uma ceia de caldo verde e sardinhas assadas, raras naquela região e muito frêscas,—nem que Nagosa fôsse um braço de mar e as houvessem ali pescado nêsse instante... No fim, para assentar, chá,—um cházinho de cidade, loiro e aromático, dando a nota apurada da civilização após aquele menu de cavadores.
Viera a criada erguer a mesa, dobrando a toalha cautelosamente para não espalhar as migalhas pelo chão, quando chegou o portador de Moimenta com a notícia de que estalára a revolução em Lisboa. A notícia era vaga e incerta, sem pormenores, porque não havia jornais nem o telegrafo funcionava; um caixeiro de amostras chegado de Lamego essa madrugada, em deligência, espalhára a novidade e disséra que Lisboa, a essa hora, era um mar de sangue![{69}]
Desde o assassinato do rei que Anselmo sentia um forte desânimo por tudo isto... D. Carlos, tipo de sibarita sem escrúpulos, inteligente, mentiroso e gabarola, fôra a última trave que ruira do desmantelado edifício monárquico. A sua morte, cuja forma, êle, Anselmo—homem de processos sóbrios—veementemente reprovára, deixára o país em alvorôço, debatendo-se nas garras duma agonia cruciante, mal amparado por gente tímida, com um rei no trôno «que não era rei nem era rainha», figurita débil e epicena de maricas.
—Havemos de ir longe! profetisava com melancolia.
A nova da revolução na capital, trazida assim, de súbito, àquela hora da noite, por um labrego analfabeto, a um lugar sertanejo e ignorado, não o surpreendeu portanto, mas encheu-o de ansiedade e sobresalto.—Qual seria o resultado de tudo aquilo? Venceria o govêrno? Venceriam os insurrectos? E depois: a intervenção extrangeira?...[{70}]
Um calafrio de susto percorreu-lhe a espinha dorsal ao pensar nisso, nos horrores duma carnificina e dum saque. Viu-se desapossado dos seus bens, violentamente, à coronhada; viu-se escorraçado, prêso, fusilado a uma esquina! Êle estava dispôsto todavia a declarar, sob sua palavra de honra, que embora tivesse militado no partido franquista, não tinha a mínima sombra de responsabilidade no indigno decreto de 31 de Janeiro...
—Com que então Lisboa é um mar de sangue? perguntou de novo ao seu rústico informador, como para certificar-se de que não delirava. E confirmada a notícia, comentou:—Pois bem... Nós cá não temos nada com isso; lá é com êles. Acima de tudo o que eu sou é patriota. Rèpública ou Monarquia tanto se me dá; o que é preciso é haver quem nos governe. Boa noite!
Havia lua cheia.