Anselmo antes de se ir deitar saíu para o terraço da casa a respirar um pouco, à vontade. Arrotou. As sardinhas vieram-lhe à bôca.[{71}] Murmurou arreliado:—«A mania de comer a esta hora há de acabar.»
O arzinho do campo, porêm, reanimou-o, fez-lhe bem, descongestionou-lhe o rosto afogueado.
Sentou-se num banco, á fresca, de colête desabotoado e a fumar.
De dentro, atraves duma janela aberta, a voz de D. Ermelinda vibrou esganiçada:
—Ansèlminho, olha a bronquite!
Não respondeu. A noite estava um encanto! Um luar muito claro punha em relevo as silhuetas da paisagem larga, beirôa, de vegetação sombria e de penedia hirsuta. Os cães ladravam na quinta. Milhões de estrelas scintilavam no céu opalino, levemente ofuscadas pela alvura do luar...
Murmurou, regalado:
—E é que já daqui não saio, emquanto a coisa se não decidir...
A 5 de Outubro estava a Rèpública definitivamente proclamada em Portugal, sabendo-se da nova em Nagosa quando o vinho[{72}] de Anselmo começava a ferver nas dornas.
De tarde Anselmo foi à lagariça para calcular com a vista a importancia da colheita. Bem boa! Sabia-se que em Moimenta os rèpublicanos tinham já içado na casa da Câmara o pavilhão revolucionário; ia um delirio na população. E o brazileiro de Cabaços deitára meia dúzia de foguetes que se viram perfeitamente de Nagosa subir e estalar no ar, deixando uns novelos de fumo branco, por momentos, no azul do céu e no oiro vivo do sol outonal.