A mudança de regimen, como Anselmo a entendia, resumir-se-ia a abolir a realeza, causa imediata e suficiente de quantos cataclismos e desgraças assoberbavam êste pobre país. O resto era pó, ou melhor, era ódio, vingança, perseguição, fanatismo. Impressionára-o bem, ao começo, o facto de serem os próprios miseráveis, os pobretanas, os maltrapilhos, quem guardára, nos dias da Revolução, os bancos e as casas da gente endinheirada. Mas a questão da bandeira, logo a seguir, a picuinha de substituirem as antigas[{74}] côres constitucionais pelo vermelho e pelo verde (há quem diga que Anselmo sublinhava a palavra verde com intenção maliciosa; talvez) começou a indispô-lo, a irritá-lo. De mais a mais havia gente insuspeita a condenar as novas tintas! E os olhos sinceramente se lhe arrasaram de lágrimas quando viu tremular no edificio da câmara municipal da sua vila (da sua vila!) o hediondo trapo republicano.
Aos primeiros dias de harmonia e de entusiasmo começaram a suceder-se no país, pouco a pouco, outros, menos tranquilisadores e festivos. Tinham-se efectuado prisões, demissões; surgiam ali e aqui desacordos, antipatias, notas desafinadas no geral concerto; havia descontentes; principiava a falar-se vagamente de conspiradores. O capitão Paiva Couceiro saíra para Espanha, agressivo, no intuito de organisar um exército restaurador da monarquia. Os padres, dizia-se, tinham o povinho ignorante das aldeias na mão, e era só dizer-lhe:—«Vamos!» tudo marcharia à uma sôbre as[{75}] cidades e daí sôbre Lisboa, engrossando, rolando, com a fôrça duma vaga e o barulho dum trovão!
O Govêrno Provisório, sorrindo desdenhosamente, tomava no emtanto as suas medidas de defeza, ordenava prevenções rigorosas nos quarteis. As redacções dos jornais monárquicos eram assaltadas por magotes de homens armados e coléricos que partiam o mobiliário, empastelavam o tipo, espatifavam as maquinas de impressão, pondo tudo em fanicos, pelas janelas, no meio da rua.
E foi numa altura destas, num estado assim de insubordinação e de efervescência, que o govêrno se lembra de perseguir os bispos!
Anselmo indignava-se:
—O país é católico, dizia, o país é católico e não pode permitir semelhante arbitrariedade! É um atentado contra a religião de cada um.
Alguêm lhe ponderou que não, que o govêrno não pensava em perseguir ninguêm; que não era êsse o espírito da lei; que o Estado o que não devia era apadrinhar esta ou aquela religião. Eu mesmo, Teotónio Mendes,[{76}] republicano hereditário, apoiei com certa autoridade e firmêsa estas sensatissimas explicações.
—Cale-se! vociferava êle, exaltado, dirigindo-se-me; cale-se, que não diz se não asneiras. A Rèpública tem de ser tolerante se quizer viver! Os jacobinos, os carbonários como o senhor, não conseguirão por mais que se esforcem abafar os protestos da opinião pública; e a opinião pública está abertamente com a Igreja. Com a Igreja, fique-o sabendo!
Todos nos calávamos. Anselmo limpava a fronte donde o suor porejava.
—Pódem-me prender, se quizerem, que eu direi sempre a verdade. A verdade é só uma!