E com descaramento:

—Você tem-me ouvido muita vez dizer isto mesmo; você sabe que eu já no tempo da monarquia era tanto ou mais liberal do que você, que se tem por histórico.

Eu, moita.

—Você não fala? não diz nada?

Afastei-me prudentemente. Notei que ia rebentar[{85}] de indignação contra aquele farçante; mas ao mesmo tempo sentia—como sentíamos todos aliás, diante dêle—que nem que fizesse ou dissesse o dôbro do que dizia e fazia, algum de nós teria a coragem de o desmentir!

Assim se consumou pois a adesão solene do sr. Anselmo a Rèpública. Tudo o que veio a seguir, gréves, intentonas, zaragatas, a incursão de julho... tudo, numa palavra, encontrou-o já pela frente, tão decidido e jacobino, ou mais ainda do que aqueles que se gabavam de o ser. Logo que se organizaram os partidos, Anselmo filiou-se nos democráticos. E o ódio ao padre, o horror ao padre, a fobia do padre obcecava-o de dia e de noite.

Uma vez, um dos ministros foi a Vizeu: pespegou-se lá, com o Teotónio e o administrador (aquele administrador que êle quis matar) e o Menezes jornalista, que tambêm já era democrático. Assistiu ao jantar, fez um brinde condenando o Clero, «êsse Clero infame a que pertencêra, não se sabe porque caprichos da sorte, o célebre, o liberalíssimo[{86}] bispo daquela terra!». Falou depois de Viriato, e terminou com um viva à Rèpública que atroou o vasto recinto do teatro onde o banquete se realizava.

O ministro, sensibilisado, ergueu-se para agradecer. Discursou pausadamente durante 20 minutos, empunhou a taça por fim, e pediu a todos que o acompanhassem e bebessem à saúde de Anselmo Nogueira, «figura prestimosa da Rèpública, homem de bem às direitas, livre pensador e companheiro fiel dos tempos da propaganda.—Hip! hip! hip! Hurrah!».

As taças tilintaram. Anselmo, carregado, chorou. E Teotónio, batendo com a mão no ombro do administrador de Moimenta, segredou-lhe:

—Lá intrujou o ministro, o patife! Companheiro fiel dos tempos da propaganda, ouviste? Que desafôro!