Helena calou-se.

—Depois, tudo se sabe, tudo, filha!... murmurou êle, à laia de vaticínio.—De que serve andar a encobrir, um dia e outro, semanas[{126}] e mêses inteiros... se tudo se vem a saber afinal?

Fitou-a demoradamente nos olhos, como a querer avaliar o efeito das suas palavras. E porque a fitava êle assim? Porque começava a sentir êsse desejo forte, essa terrivel necessidade de a observar, sondando os mínimos recantos da sua alma, onde pela primeira vez, desde que a conhecia, notava misteriosos e traiçoeiros abismos?...

Chamou-a brandamente, disse-lhe:

—Helena, que me ocultas tu? Tenho a impressão de que se passou aqui alguma coisa, na minha ausência, que desejas que eu ignore... Ah! não negues... leio-to nos olhos!

Ela baixou instintivamente a cabeça.

—Alguma coisa?!...—disse por fim, em voz pouco firme, esforçando-se por manifestar estranhesa e não conseguindo senão comprometer-se ainda mais, aumentando aquelas desconfianças.

Êle tremia todo como varas verdes. Lançou mão da coragem que lhe restava, para lhe dizer com serenidade:[{127}]

—Vamos, tu não me tens na conta dum imbecil, não é verdade? Deves ter presumido portanto que os factos aqui ocorridos, desde que cheguei, tenham despertado o meu reparo.

—Os factos?! Quais factos?!—dissimulou.