Ergueu-se alucinada. Tinha no rosto o aspecto apavorado, trágico, de pessoa que se vê agarrada pelas costas numa encrusilhada deserta. Deu um grito, abriu os braços e caiu num sofá a estrebuchar.

Alberto—nessa perfeita lassitude d'ânimo que sucede sempre a uma grande catástrofe,—pôs-se a presenciar tudo, naquele momento, com uma tranquilidade estupenda! Sentia-se por assim dizer mergulhado num grande banho morno de indiferença e de tédio...

Helena, debelada a crise inicial, com a cabeça entre as mãos, chorava, arrepelava-se. E o marido sorria àquela dôr como se estivesse gosando as delícias dum drama de sensação em que sua mulher fôsse uma sublime artista e êle próprio, por desdobramento, um actor de mérito, representando o papel de[{130}] marido ciumento com a mais pura e meticulosa arte!

No fundo não aplaudia a peça, mas achava que os artistas iam bem...

Deu uns passos ao acaso e, maquinalmente, dirigiu-se para o quarto. Voltou, logo em seguida: tinha envergado à pressa o sobretudo e trazia ainda na mão o chapéu e a bengala. Parecia-lhe ter ouvido gritar: «Bravo! Bravo!»; que uma multidão ruidosa de espectadores se levantava para saír da sala. Ouvia mesmo os comentários da ópera—porque era afinal uma ópera!—pessoas que passavam, suas conhecidas, que êle cumprimentava e lhe diziam:

—«Gostou?

—«Muito!»

Helena atravessou-se-lhe no caminho:

—Onde vais? Perdoa! Agora que te disse tudo porque é que me não perdoas?...

Só então deu acôrdo de si. Um assômo atávico de ferocidade o dominou. Viu tudo negro! Agarrou Helena pelo pescoço e chegou a apertar.[{131}]