—Deixa-me! deixa-me![{128}]
Não poude mais. Agarrou-lhe nos pulsos, arrastou-a para defronte da luz, intimou-a em voz alta, imperativa, onde havia inflexões de súplica e latejava ao mesmo tempo uma angústia horrível:
—Fala! anda... diz-me tudo!
Os seus olhos faíscavam, tinham relâmpagos de cólera.
—Larga-me!—implorou Helena.—Não olhes para mim dessa maneira... Tenho medo!
—E porque tens tu medo de mim?!
Aquilo já não era uma altercação, uma scena de ciumes desagradável, uma simples desavença entre casados: era uma luta feroz, encarniçada, em que cada qual porfiava por levar o outro de vencida. Apertou-lhe as mãos com energia, de forma a fazê-la gritar:
—Não, Alberto, não! Tu não estás em ti, deixa-me! Olha que me magôas, deixa-me!
Mal a ouvia já. Os seus protestos, os seus rogos, as suas lágrimas, o desespero em que se debatia, mais o enfureciam: quase lhe davam provas do que se passára!... Mas o que se passára?[{129}]
E baixinho, ao ouvido, como quem insinúa uma calúnia, disse-lhe tudo o que a sua mórbida fantasia arquitectára a êsse respeito, desde que a suspeita entrára no seu cérebro e aí gerára a mais tremenda acusação que podia pesar sôbre a honra duma mulher.