As oitavas dos Lusíadas, ondas do mar salgado, são eternos estremecimentos de Memória esculpindo no Infinito a fisionomia espiritual da Pátria.
O homem pertence a vários planos de vida espiritual: é cidadão da sua pátria, membro da sua religião, parcela consciente no Universo.
E cada plano é atravessado pelo esfôrço do homem-consciência para a conservação e para a Memória.
É por isso que em cada plano há névoa e sonho e o homem estremece duma nostalgia inquietante.
O homem é o desterrado de Soares dos Reis...
Se o Universo desde o sábio ao Poeta (e sem que prejulgue o problema Mal) é convívio, a consciência do homem há de procurar as relações cósmicas na companhia das consciências mais próximas.
Eis porque o homem, consciência no Infinito, é cidadão na sua Pátria e une a sua voz à voz de seus irmãos para erguer em côro a própria voz da Pátria. E, como as almas só crescem pelo sacrificio dos desejos de separatividade que as fôrças da Morte nelas insinuaram, o amor da Pátria é a primeira e a mais concreta experiência religiosa das almas.
Mal vai, no entanto, às Pátrias que, vítimas dum orgulhoso isolamento demoniaco, não prolongam o{13} sacrifício das almas não alargam os seus estremecimentos de amor até à vida cósmica e infinita.
Se Deus é a própria consciência social, para que esta não pese e adormeça as almas necessario é que cresça e se ilimite em consciência social do Universo.
O amor da Pátria será o amor dos homens e das coisas, encerrando-se em eterno e renovado amor de Deus.