Foram de manhã, o Presidente da Camara, o doutor, sua mulher e a filha de Campos. O logar não era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze metros de altura, despenhava-se em tres partes, pelo flanco da montanha abaixo. A agua estremecia na quéda, como que se enrodilhava e vinha pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma aboboda de arvores. O sol coava-se difficilmente e vinha faiscar sobre a agua ou sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os periquitos, de um verde mais claro, pousados nos galhos eram como as incrustações daquelle salão fantastico.

Olga pôde ver tudo isso bem á vontade, andando de um para outro lado, porque a filha do presidente era de um silencio de tumulo e o pae desta tomava com o sou marido informações sobre novidades medicinaes: Como se cura hoje erysipela? Ainda se usa muito o tartaro emetico?

O que mais a impressionou no passeio foi a miseria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ella tinha dos roceiros idéa de que eram felizes saudaveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta agua, porque as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquelle sapê sinistro e aquelle «sopapo» que deixava ver a trama de varas, como o esqueleto de um doente. Porque ao redor dessas casas, não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão facil, trabalho de horas. E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Porque? Mesmo nas fazendas, o espectaculo não era mais animador. Todas soturnas, baixas, quasi sem o pomar olente e a horta succulenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ella não pôde ver outra lavoura, outra industria agricola. Não podia ser preguiça só ou indolencia. Para o seu gasto, para uso proprio, o homem tem sempre energia para trabalhar. As populações mais accusadas de preguiça, trabalham relativamente. Na Africa, na India, na Cochinchina, em toda parte, os casaes, as familias, as tribos, plantam um pouco, algumas cousas para elles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e tambem a sua piedade e sympathia por aquelles parias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbaticos!...

Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades mezes e annos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remedio. Aquillo era uma situação do camponez da idade média e começo da nossa; era o famoso animal de La Bruyére que tinha face humana e voz articulada...

Como no dia seguinte fosse passeiar ao roçado do padrinho, aproveitou a occasião para interrogar a respeito o tagarella Felizardo. A faina do roçado ia quasi no fim; o grande trato da terra estava quasi inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a collina que formava a lombada do sitio.

Olga encontrou o camarada cá em baixo, cortando a machado as madeiras mais grossas; Anastacio estava no alto, na orla do mato, juntando, a ancinho, as folhas caidas. Ella lhe falou.

—Bons dias, sá dona.

—Então trabalha-se muito, Felizardo?

—O que se póde.

—Estive hontem no Carico, bonito logar... Onde é que você mora, Felizardo?