Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da collectoria, cujo escrivão, Antonio Dutra, conforme estava no papel, intimava o Sr. Polycarpo Quaresma a pagar quinhentos mil réis de multa, por ter enviado productos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos impostos.
Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento voou logo para as cousas geraes, levado pelo seu patriotismo profundo.
A quarenta kilometros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas? Depois de Turgot da Revolução, ainda havia alfandegas interiores?
Como era possivel fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e impostos? Se ao monopolio dos atravessadores do Rio se juntavam as exacções do Estado, como era possivel tirar da terra a remuneração consoladora?
E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação da municipalidade, voltou-lhe de novo, mais tetrico, mais sombrio, mais lugubre; e anteviu a epoca em que aquella gente teria de comer sapo, cobras, animaes mortos, como em França os camponezes, em tempos de grandes reis.
Quaresma veiu a recordar-se do seu tupy, do seu folk-lore, das modinhas, das suas tentativas agricolas—tudo isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil.
Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessario refazer a administração. Imaginava um Governo forte, respeitado, intelligente, removendo todos esses obices, esses entraves, Sully e Henrique IV, espalhando sabias leis agrarias, levantando o cultivador... Então sim! O celleiro surgiria e a patria seria feliz.
Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar á estação, e lhe disse:
—Seu patrão, amanhã não venho trabaiá.
—Por certo; é dia feriado... A Independencia.