—Conheço bem esse negocio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe, Bustamante, que, em Curuzú...
—A cousa foi terrivel, accrescentou Bustamante.
O trem atracava na estação. Veiu chegando manso, vagaroso, a locomotiva, muito negra, bufando, sumido gordurosamente, com a sua grande lanterna na frente, um olho de cyclope, avançava que nem uma apparição sobrenattural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e parou por fim.
Estava repleto, muitas fardas de officiaes, a avaliar por ali o Rio devia ter uma guarnição de cem mil homens. Os militares palravam alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados. Se falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de traz.
A cidade andava inçada de secretas, familiares do Santo Officio Republicano, e as delações eram moedas com que se obtinham postos e recompensas.
Bastava a minima critica, para se perder o emprego, a liberdade,—quem sabe?—a vida tambem. Ainda estavamos no começo da revolta, mas o regimen já publicara o seu prologo e todos estavam avisados. O chefe de policia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distincção de posição e talentos. Mereciam as mesmas perseguições do Governo um pobre continuo e um influente senador; um lente e um simples empregado de escriptorio. Demais surgiam as vinganças! mesquinhas, a revide de pequenas implicancias... Todos mandavam: a autoridade estava em todas as mãos.
Em nome do Marechal Floriano, qualquer official, ou mesmo cidadão, sem funcção publica alguma, prendia e ai de quem cahia na prisão, lá ficava esquecido, soffrendo angustiosos supplicios de uma imaginação dominicana. Os funccionarios disputavam-se em bajulação, em servilismo... Era um terror, um terror baço, sem coragem, sangrento, ás occultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier Tinville.
Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a companhia, a todos esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse nefasto o hypocrita positivismo, um pedantismo tyrannico, limitado e estreito, que justificava todas as violencias, todos os assassinios todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessaria, lá diz elle, ao progresso e tambem ao advento do regimen normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com fanhosas musicas de cornetins e versos detestaveis, o paraizo emfim, com inscripções em escriptura phonetica e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!...
Os positivistas discutiam e citavam theoremas de mecanica para justificar as suas idéas de Governo, em tudo semelhantes aos khanatos e emirados orientaes.
A mathematica do positivismo foi sempre um puro falatorio que, naquelles tempos, amedrontava toda a gente. Havia mesmo quem estivesse convencido que a mathematica tinha sido feita e criada para o positivismo, como se a Biblia estivesse sido criada unicamente para a Igreja Catholica e não tambem para a Anglicana. O prestigio delle era, portanto, enorme.