Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim que, para apoial-o e defender o seu Governo, imaginava organizar um batalhão patriotico, de que já tinha o nome «Cruzeiro do Sul» e naturalmente seria o seu commandante, com todas as vantagens do posto de coronel.
Genelicio, cuja actividade nada tinha de guerreira, esperava muito da energia e da decisão do Governo de Floriano: esperava ser sub-director e não podia um Governo sério, honesto e energico, fazer outra cousa, desde que quizesse pôr ordem na sua secção.
Essas secretas esperanças eram mais geraes do que se pode suppor. Nós vivemos do Governo e a revolta representava uma confusão nos empregos, nas honrarias e nas posições que o Estado espalha. Os suspeitos abririam vagas e as dedicações suppririam os titulos e habilitações para occupal-as; além disso, o Governo, precisando de sympathias e homens, tinha que nomear, espalhar, prodigalizar, inventar, criar e distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações.
O proprio Dr. Armando Borges, o marido de Olga e sabio sereno e dedicado quando estudante, collocava na revolta a realização de risonhos anhelos.
Medico e rico, pela fortuna da mulher, elle não andava satisfeito. A ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-n'o. Já era medico do Hospital Syrio, onde ia tres vezes por semana e, em meia hora, via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro, dava-lhe informações, o doutor ia de cama em cama, perguntando: como vai? Vou melhor seu doutor, respondia o syrio com voz gutural. Na seguinte, indagava: Já está melhor? E assim passava a visita; chegando ao gabinete receitava: doente n. 1, repita a receita; doente 5... quem é?... Quem é aquelle barbado... Ahn! E receitava.
Mas medico de um hospital particular não dá fama a ninguem: o indispensavel é ser do Governo, senão elle não passava, de um simples pratico. Queria ter um cargo official, medico, director ou mesmo lente da Faculdade.
E isso não era difficil, desde que arranjasse boas recommendações, pois já tinha certo nome, graças á sua actividade e fertilidade de recursos.
De quando em quando, publicava um folheto «O cobreiro, Etiologia, Prophylaxia e tratamento» ou «Contribuição para o estudo da sarna no Brasil»; e mandava o folheto, quarenta e sessenta paginas, aos jornaes que se occupavam delle duas ou tres vezes por anno; o operoso, Dr. Armando Borges, o illustre clinico, o proficiente medico da nossos hospitaes, etc. etc.
Obtinha isso graças á precaução que tomara em estudante de se relacionar com os rapazes da imprensa.
Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que não havia nada de proprio, mas ricos de citações em francez, inglez e allemão.