O logar de lente é que o tentava mais; o concurso porém, mettia-lhe medo. Tinha elementos, estava bem relacionado e cotado na Congregação, mas aquella historia de arguição apavorava-o.
Não havia dia em que não comprasse livros, em francez, inglez e italiano; tomara até um professor de allemão para entrar na sciencia germanica; mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a sua felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando estudante.
A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em bibliotheca. As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes tratados. Ar noite, elle abria as janellas das venezianas, accendia todos os bicos de gaz e se punha á meza, todo de branco com um livro aberto sob os olhos.
O somno não tardava a vir ao fim da quinta pagina... isso era o diabo! Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances francezes, Goncourt, Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira que os tratados. Elle não comprehendia a grandeza daquellas analyses, daquellas descripções, o interesse e o valor dellas, revelando a todos, á sociedade, a vida, os sentimentos, as dores daquelles personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa sciencia e a pobreza de sua instrucção geral faziam-n'o ver naquillo tudo, brinquedos, passatempos, falatorios, tanto mais que elle dormia á leitura, de taes livros.
Precisava, porém, illudir-se, a si mesmo e á mulher. De resto, da rua, viam-n'o e se dessem com elle a dormir sobre os livros?!... Tratou de encommendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com titulos trocados e afastou o somno.
A sua clinica, entretanto, prosperava. De commandita com o tutor, chegou a ganhar uns seis contos, tratando de um febrão de uma orphã rica.
Desde muito que a mulher lhe entrara na sua simulação de intelligencia, mas aquella manobra indecorosa, indignou-a. Que necessidade tinha elle disso? Não era já rico? Não era moço? Não tinha o privilegio de um titulo universitario? Tal acto pareceu á moça mais vil, mais baixo, que a usura de um judeu, que o aluguel de uma penna...
Não foi desprezo, nojo que ella teve pelo marido; foi um sentimento mais calmo, menos activo; desinteressou-se delle, destacou-se de sua pessoa. Ella sentiu que tinham cortado todos os laços de affeição, de sympathia, que prendiam ambos, toda a ligação moral, emfim.
Mesmo quando noiva, verificara que aquellas cousas de amor ao estudo, de interesse pela sciencia, de ambições de descobertas, nelle, eram superficiaes, estavam á flor da pelle; mas desculpou. Muitas vezes nós nos enganamos sobre as nossas proprias forças e capacidades; sonhamos ser Shakespeare e sahimos Mal dos Vinhas. Era perdoavel, mas charlatão? Era de mais!
Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quasi indignidade?... Todos os homens deviam ser iguaes, era inutil mudar deste para aquelle...