Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou:
—Eu sirvo sim, sim, mas dêm-me o meu violão.
Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:
—Restituam o violão ao cabo Ricardo!
II
VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO
Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado de terra, mal se enxergam as partes baixas dos edificios proximos; para o lado do mar, então, a vista é impotente contra aquella treva esbranquiçada e fluctuante, contra aquella muralha de flócos e opaca, que se condensa ali e aqui em apparições, em semelhanças de cousas. O mar está silencioso: ha grandes intervallos entre o seu fraco marulho. Vê-se da praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odôr da maresia parece mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o desconhecido, o Mysterio. Entretanto, aquella pasta espessa, de uma claridade diffusa, está povoada de ruidos. O chiar das serras vizinhas, os apitos de fabricas e locomotivas, os guinchos do guindastes dos navios enchem aquella manhã indecifravel e taciturna; e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar. Accredita-se, dentro daquelle decoro, que é Charonte que traz a sua barca para uma das margens do Styge...
Attenção! Todos prescrutam a cortina de nevoa pastosa. Os rostos estão alterados; parece que, do seio da bruma, vão surgir demonios...
Não se ouve mais a bulha: o escaler afastou-se. As physionomias respiram aliviadas...
Não é noite, não é dia; não é o diluculo, não é o crepusculo: é a hora da angustia, é a luz da incerteza. No mar, não ha estrellas nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro ás paredes brancas das casas. A nossa miseria é mais completa e a falta daquelles mudos marcos da nossa actividade dá mais forte percepção do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa.