Por ahi em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de Minas e ainda ultimamente os chamados generos do paiz. Não havia ainda cem annos que as carruagens d'El Rey D. João VI, pesadas como naus, a balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por ali para irem ter ao longiquo Santa Cruz. Não se póde crer que a cousa fosse lá muito imponente; a Côrte andava em apuros de dinheiro e o rei era relaxado. Não obstante os soldados remendados, tristemente montados em pangarés desanimados, o prestito devia ter a sua grandeza, não por elle mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos tinham que dar á sua lamentavel majestade.

Entre nós tudo é inconsistente, provisorio, não dura. Não havia ali nada que lembrasse esse passado. As casas velhas, com grandes janellas, quasi quadradas, e vidraças de pequenos vidros eram de ha bem poucos annos, menos de cincoenta.

Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquillo sem reminiscencias e foram até ao ponto. Antes perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animaes e corridas, tendo grandes ferraduras, cabeças de cavallos, panoplias de chicotes e outros emblemas hippicos, nos pilares dos portões, nas almofadas das portas, por toda parte onde taes distinctivos fiquem bem e dêm na vista.

A casa da velha preta ficava além do ponto, para as bandas da estação da estrada de ferro Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação. Sobre um largo terreiro, negro de moinha de carvão de pedra, médas de lenha e immensas tulhas de saccos de carvão vegetal se accumulavam; mais adiante um deposito de locomotivas e sobre os trilhos algumas manobravam e outras arfavam sob pressão.

Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo estivera secco e por isso se podia andar por elle. Para além do caminho, extendia-se a vasta região de mangues, uma zona immensa, triste e feia, que vai até ao fundo da bahia e, no horizonte, morre ao sopé das montanhas azues de Petropolis. Chegaram á casa da velha. Era baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas portuguezas. Ficava um pouco afastada da estrada. Á direita havia um monturo: restos de cozinha, trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira—um sambaqui a fazer-se para gaudio de um archeologo de futuro remoto: á esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto á cerca, no mesmo lado, havia um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça appareceu na janella aberta.

—Que desejam?

Disseram o que queriam e approximaram-se. A moça gritou para o interior da casa:

—Vovó estão ahi dous moços que querem falar com a senhora. Entrem, façam o favor—disse ella depois, dirigindo-se ao General e ao seu companheiro.

A sala era pequena e de telha vã. Pelas paredes, velhos chromos de folinhas, registros de Santos, recortes de illustrações de jornaes baralhavam-se e subiam por ellas acima até dous terços da altura. Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Victor Emmanuel com enormes bigodes em desordem; um chromo sentimental de folhinha—uma cabeça de mulher em posição de sonho—parecia olhar um S. João Baptista ao lado. No alto da porta que levava ao interior da casa, uma lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a Conceição de louça.

Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando o peito descamado, enfeitado com um collar de missangas de duas voltas. Capengava de um pé e parecia querer ajudar a marcha, com a mão esquerda pousada na perna correspondente.