Acabado o almoço, dava umas voltas pela chacara, chacara em que predominavam as fruteiras nacionaes, recebendo a pitanga e o camboim os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia, como se fossem bem cerejas ou figos.
O passeio era demorado e philosophico. Conversando com o preto Anastacio, que lhe servia ha trinta annos, sobre cousas antigas—o casamento das princezas, a quebra do Souto e outras—o Major continuava com o pensamento preso nas problemas que o preoccupavam ultimamente. Após uma hora ou menos, voltara á bibliotheca e mergulhava nas revistas do Instituto Historico, no Fernão Cardim, nas cartas de Nobrega, nos annaes da Bibliotheca, no von den Stein e tomava notas sobre notas, guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os indios. Não fica bem dizer estudava, porque já o fizera ha tempos, não só no tocante á lingua, que já quasi falara, como tambem nos simples aspectos ethnographicos e anthropologicos. Recordava (é melhor dizer assim), affirmava certas noções dos seus estudos anteriores, visto estar organizando um systema de ceremonias e festas que se baseasse nos costumes dos nossos selvicolas e abrangesse todas as relações sociaes.
Para bem se comprehender o motivo disso, é precizo não esquecer que o Major, depois de trinta armas de meditação patriotica, de estudos e reflexões, chegava agora ao periodo da fructificação. A convicção que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro paiz do mundo e o seu grande amor á patria, eram agora activos e impelliram-no a grandes commettimemtos. Elle sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir, de obrar e de concretizar suas idéas. Eram pequenos melhoramentos, simples toques, porque em si mesma (era a sua opinião), a grande patria do Cruzeiro só precizava de tempo para ser superior á Inglaterra.
Tinha todos os climas, todos os fructos, todos os mineraes e animaes uteis, as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais intelligente e mais doce do mundo—o que precizava mais? Tempo e um pouco de originalidade. Portanto, duvidas não fluctuavam mais no seu espirito, mas no que se referia á originalidade de costumes e usanças, não se tinham ellas dissipado, antes se transformaram em certeza após tomar parte na folia do Tangolomango, numa festa que o general dera em casa.
Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veiu despertar no general e na familia um gosto pelas festanças, cantigas e habitos genuinamente nacionaes como se diz por ahi. Houve em todos um desejo de sentir, de sonhar, de poetar á maneira popular dos velhos tempos. Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto taes cerimonias na sua infancia: D. Maricota, sua mulher, até ainda se lembrava de uns versos de Reis; e os seus filhos, cinco moças e um rapaz, viram na cousa um pretexto de festas e, portanto, applaudiram o enthusiasmo dos progenitores. A modinha era pouco; os seus espiritos pediam cousa mais plebea, mais caracteristica e extravagante.
Quaresma ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma chegança, á moda do Norte, por occasião do anniversario de sua praça. Em casa do general era assim: qualquer anniversario tinha a sua festa, de fórma que havia bem umas trinta por anno, não contando domingos, dias feriados e santificados em que se dansava tambem.
O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e dansas tradicionaes, entretanto viu logo a significação altamente patriotica do intento. Approvou e animou o vizinho. Mas quem havia de ensaiar, de dar os versos e a musica? Alguem lembrou a tia Maria Rita, uma preta velha, que morava em Bemfica, antiga lavadeira da familia Albernaz. Lá foram os dous, o general Albernaz e o major Quaresma, alegres, apressados, por uma linda e crystallina tarde de Abril.
O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não posuisse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma unica batalha, não tivera um commando, nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fôra sempre ajudante de ordens, assistente, encarregado disso ou daquillo, escripturario, almoxarife, e era secretario do Conselho Supremo Militar, quando, se reformou em general. Os seus habitos eram de um bom chefe de secção e a sua intelligencia não era muito differente dos seus habitos. Nada entendia de guerras, de estrategia, de tactica ou de historia militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida ás batalhas do Paraguay, para elle a maior e a mais extraordinaria guerra de todos os tempos.
O altisonante titulo de general, que lembrava cousas sobrehumanas dos Cesares, dos Tuxennes e dos Gustavos Adolphos, ficava mal naquelle homem placido, mediocre, bonachão, cuja unica preoccupação era casar as cinco filhas e arranjar pistolões para fazer passar o filho nos exames do Collegio Militar. Comtudo, não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. Elle mesmo, percebendo o seu ar muito civil, de onde em onde, contava um episodio de guerra, uma anedocta militar. «Foi em Lommas Valentinas, dizia elle»... Se alguem perguntava: «O general assistiu a batalha» ?Elle respondia logo: «Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vesperas. Mas soube pelo Camisão, pelo Venancio que a cousa esteve preta».
O bonde que os levava até á velha Maria Rita, percorria um dos trechos mais interessantes da cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da cidade, antigo termino de um picadão que ia ter a Minas, se esgalhava para S. Paulo e abria communicações com o Curato de Santa Cruz.