—Que toque é?
—Sentido.
Os dous sahiram. Fontes perfeitamente fardado; e o Major apertando o talim, sem encontrar geito, tropeçando na espada veneravel que teimava em se lhe metter entre as pernas curtas. Os soldados já estavam nas trincheiras, armas á mão; o canhão tinha ao lado a munição necessaria. Uma lancha avançava lentamente, com a prôa alta assestada para o posto. De repente, sahiu de sua borda um golfão de fumaça espessa: Queimou!—gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou alto, zunindo, cantando, inoffensiva. A lancha continuava a avançar impavida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fôra um destes que gritara: queimou!
E assim sempre. Ás vezes elles chegavam bem perto á tropa, ás trincheiras, atrapalhando o serviço: em outras, um cidadão qualquer, chegava ao official e muito delicadamente pedia: o senhor dá licença que dê um tiro. O official accedia, os serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia.
Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade... Quando se annunciava um bombardeio, num segundo, o terraço do Passeio Publico se enchia. Era como se fosse uma noite de luar, no tempo em que era do tom aprecial-as no velho jardim de D. Luiz de Vasconcellos, vendo o astro solitario pratear a agua e encher o céo.
Alugavam-se binoculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação de theatro: «queimou Santa Cruz! Agora é o «Aquidaban»! Lá vai»! E dessa maneira a revolvia correndo familiarmente, entrando nos habitos e nos costumes da cidade.
No cáes Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornaes, engraxates, quitandeiros ficavam atrás das portadas, dos urinarios, das arvores, a ver, a esperar a quéda das balas; e quando acontecia cahir uma, corriam todos em bôlo, a apanhal-a como se fosse uma moeda ou guloseima.
As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de relogio, lapizeiras, feitas com as pequenas balas de fuzis: faziam-se tambem collecções das medias e com os seus estojos de metal, areados, polidos, lixados, ornavam consolos, os dunkerques das casas médias; as grandes, os melões e as aboboras, como chamavam, guarneciam os jardins, como vasos de faiança ou estatuas.
A lancha continuava a atirar: Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o projectil, recuou um pouco e logo foi posto em posição. A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou!
Eram sempre esses garotos que a anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam o fuzilar breve e a fumaça, lá longe, no navio, jorrar de vagar, muito pesada, gritavam queimou!