—Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa a senhora...

A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em redor, deu com a porta semi-cerrada e levantou-se para fechal-a. Quiz ainda ver se a dissuadia daquelle pensamento; Ismenia, porém, continuava a repetil-o pacientemente docemente, serenamente:

—Eu sei, mamãe.

—Bem. Supponho que é verdade: o que é que você quer?

—Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva.

D. Maricota ainda quiz brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para o outro lado, poz-se a dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe saiu do quarto, commovida, com lagrimas nos olhos e a secreta certeza de que a filha, falava a verdade.

Não tardou muito a se verificar. O Dr. Armando a tinha visitado naquella manhã pela quarta vez; ella parecia melhor, desde alguns dias, falava com discernimento, sentava-se á cama e conversava com prazer.

D. Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue ás irmãs. Ellas foram lá ao quarto varias vezes e parecia dormir. Distrahiram-se.

Ismenia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto, o seu traje de noiva. Teve vontade de vel-o mais de perto. Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplal-o. Chegou-lhe o desejo de vestil-o. Poz a saia: e, por ahi, vieram recordações do seu casamento falhado. Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente osseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas não se recordou com odio, antes como se fosse um logar visto ha muito tempo, e que a tivesse impressionado.

De quem ella se lembrava com raiva era da cartomante. Illudindo sua mãe, acompanhada por uma criada, tinha conseguido consultar Mme. Sinhá. Com que indifferença ella lhe respondeu: não volta! Aquillo doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah!... Acabou de abotoar a saia em cima do corpinho, pois não encontrara collete; e foi ao espelho. Viu os seus hombros nús, o seu collo muito branco... Surprehendeu-se. Era della aquillo tudo? Apalpou-se um pouco e depois collocou a corôa. O véo afagou-lhe as espaduas carinhosamente, como um adejo de borboleta. Teve uma fraqueja, uma cousa, deu um ai e cahiu de costas na cama, com as pernas para fóra... Quando a vieram ver, estava morta. Tinha ainda a corda na cabeça e um seio, muito branco e redondo, saltava-lhe do corpinho.