—Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu amigo, o Major Polycarpo, se sei.

Quaresma fez com a cabeça signal affirmativo e a preta velha, talvez com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor recordar-se, e entôou:

«É vêm tutu'
Por detrás do murundu
P'ra cumê sinhosinho
C'um bucado de angu'».

—Ora! fez o General com enfado, isso é cousa antiga de emballar crianças. Você não sabe outra?

—Não, sinhô. Já mi esqueceu.

Os dous sahiram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo não guardava as tradições de trinta annos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções? Era bem um signal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade diante daquelles povos tenazes que os guardam durante seculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições, mantel-as sempre vivazes nas memorias e nos costumes...

Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um numero bom para a festa que ia dar, e escapava-lhe. Era quasi a esperança de casamento de uma das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma dellas já estava garantida, graças a Deus!

O crepusculo chegava e elles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora.

A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismenia, informou que nas immediações morava um literato, teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. Foram a elle. Era um velho poeta que teve sua fama ahi pelos setenta e tantos, homem doce e ingenuo que se deixara esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em publicar collecções que ninguem lia, de contos, canções, adagios e dictados populares.

Foi grande a sua alegria quando soube o objecta da visita daquelles senhores. Quaresma estava animado e falou com calor; e Albernaz tambem, porque via na sua festa,—com um numero de folk-lore, meio de chamar a attenção sobre sua casa, attrahir gente e... casar as filhas.