A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas, e imaginou que do exemplo dellas vinham os crimes que aquella punia, castigava e procurava restringir. Eram negras e desesperadas, as suas idéas; muita vez julgou que delirava.

E então se lamentava por estar sósinho, par não ter um companheiro com quem conversar, que lhe fizesse fugir aquelles tristes pensamentos que o assediavam e se chiavam transformando em obsessão.

Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras: e, mesmo que ali estivesse, os rigores da disciplina não lhe permittiriam uma conversa mais amigavel. Vinha a noite inteiramente, e o silencio e a treva envolviam tudo.

Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da bahia, onde quasi não havia luzes que interrompessem a continuidade do negror nocturno.

Fixava bem os olhos para lá, como se os quizesse habituar a peneirar nas cousas indecifraveis e adivinhar dentro da sombra negra a forma das montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito desapparecer.

Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insomnias e, se queria ler, a attenção recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito longe do livro.

Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veiu accordal-o pela madrugada:

—Sr. Major, está ahi o home do Itamaraty.

—Que homem?

—O official que vem buscar a turma do Boqueirão.