Sem attinar bem do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do visitante. O homem já estava no interior de um dos alojamentos. Uma escolta estava á porta. Seguiam-no algumas praças, das quaes uma levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna amarellada. A vasta sala estava cheia de corpos, deitados, semi-nus, e havia todo o iris das cores humanas. Uns roncavam, outros dormiam sómente; e quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho, gemeu—ai! Cumprimentaram-se Quaresma e o emissario do Itamaraty, e nada disseram. Ambos tiveram medo de falar. O official despertou um dos prisioneiros e disse para as praças: Levem este.
Seguiu adiante e despertou outro:—onde você esteve? Eu—respondeu o marinheiro—na «Guanabara»... Ah! patife, acudiu o homem do Itamaraty... Este tambem... Levem!...
Os soldados conductores iam até á porta, deixaram o prisioneiro e voltavam.
O official passou por uma porção delles e não fez reparo: adiante, deu com um rapaz claro, franzino, que não dormia. Gritou então: levante-se! O rapaz ergueu-se tremendo.—Onde esteve você? perguntou.—Eu era enfermeiro, retrucou o rapaz.—Que enfermeiro! fez o emissario. Levem este tambem...
—Mas, seu Tenente, deixe-me escrever á minha mãe, pediu o rapaz quasi chorando.
—Que mãe respondeu o homem do Itamaraty. Siga! Vá!
E assim foi uma duzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta, a embarcar num batelão que uma lancha logo rebocou para fóra das aguas da ilha.
Quaresma não atinou de prompto com o sentido da scena e foi, após o afastamento da lancha, que elle encontrou uma explicação.
Não deixou de pensar então por que força mysteriosa, por que injuncção ironica elle se tinha misturado em tão tenebrosos acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do regimen...
A embarcação não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro as pedras do caes. A esteira da embarcação estrellejava phosphorescente. No alto, num céo negro e profundo, as estrellas brilhavam serenamente.