A lancha desappareceu nas trevas do fundo da bahia. Para onde ia? Para o Boqueirão...
V
A AFILHADA
Como lhe parecia illogico com elle mesmo estar ali mettido naquelle estreito calabouço. Pois elle, o Quaresma placido, o Quaresma de tão profundos pensamentos patrioticos, merecia aquelle triste fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que elle pudesse presentir o seu extravagante proposito, tão apparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido elle com os seus actos passados, com as suas acções encadeiadas no tempo, que fizera com que aquelle velho deus docilmente o trouxesse até á execução de tal designio? Ou teriam sido os factos externos, que venceram a elle, Quaresma, e fizeram-n'o escravo da sentença da omnipotente divindade? Elle não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas cousas se baralhavam, se emmaranhavam e a conclusão certa e exacta lhe fugia.
Não estava ali ha muitas horas. Fôra preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama; e, pelo calculo approximado do tempo, pois estava sem relogio e mesmo se o tivesse não poderia consultal-o á fraca luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
Porque estava preso? Ao certo não sabia; o official que o conduzira, nada lhe quizera dizer; e, desde que sahira da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com ninguem, não vira nenhum conhecido no caminho, nem o proprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um gesto, trazer socego ás suas duvidas. Entretanto, elle attribuia a prisão á carta que escrevera ao Presidente, protestando contra a scena que presenciara na vespera.
Não se pudera conter. Aquella leva de desgraça a sahir assim, as deshonras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos puzera diante dos seus olhos todos os seus principios moraes; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana: e elle escrevera a carta com vehemencia, com paixão, indignado. Nada omittiu do seu pensamento: falou claro, franca e nitidamente.
Deve ser por isso que elle estava ali naquella masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma féra, como um criminoso, sepultado na treva, soffrendo humidade, misturado com os seus detrictos quasi sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquella angustia provocava pensar. Não havia base para qualquer hypothese. Era de conducta tão irregular e incerta o Governo que tudo elle, podia esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquella.
O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sêde de matar, para affirmar mais a victoria e sentil-a bem na consciencia cousa sua, propria, e altamente honrosa.
Iria morrer, quem sabe se naquella noite mesmo. E que tinha elle feito de sua vida? Nada. Levara toda ella atraz da miragem de estudar a patria, por amal-a e querel-a muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade tambem; e, agora que estava na velhice, como ella o recompensava, como ella o premiava, como ella o condecorava? Matando-o. E o que não deixara de ver, de gosar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara—todo esse lado da existencia que parece fugir um pouco á sua tristeza necessaria, elle não vira, elle não provara, elle não experimentara.