Desde dezoito annos que o tal patriotismo lhe absorvia e por elle fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróes do Brasil? Em nada... O importante é que elle tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupy, do folk lore, das suas tentativas agricolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!

O tupy encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escarneo; e levou-o á loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ella não era facil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois elle não a viu combater como féras? Pois não a via matar prisioneiros, innumeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma serie, melhor, um encadeiamento de decepções.

A patria que quizera ter era um mytho; era um fantasma criado por elle no silencio do seu gabinete. Nem a physica, nem a moral, nem a intellectual, nem a politica que julgava existir, havia. A que existia de facto, era a do Tenente Antonino, a do Dr. Campos, a do homem do Itamaraty.

E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Patria? Não teria levado toda a sua vida norteado por uma illusão, por uma idéa a menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma Deusa cujo imperio se esvaia? Não sabia que essa idéa nascera da amplificação da crendice dos povos grego-romanos de que ancestraes mortos continuaram a viver como sombras e era preciso alimental-as para que elles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Conlangos... Lembrou-se de que essa noção nada é para os menenanan, para tantas pesos... Pareceu-lhes que essa idéa como que fôra explorada pelos conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviencias psychologicas, no intuito de servir ás suas proprias ambições...

Reviu a historia; viu as mutilações, os accrescimos em todos os paizes historicos e perguntou de si para si; como um homem que vivesse quatro seculos, sendo francez, inglez, italiano, allemão, podia sentir a Patria?

Uma hora, para o francez, o Franco-Condado era terra dos seus avós, outra não era; num dado momento, a Alsacia não era, depois era e afinal não vinha a ser.

Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura, sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso soffremos qualquer magua?

Certamente era uma noção sem consistencia racional e precisava ser revista.

Mas, como é que elle tão sereno, tão lucido, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera atraz de tal chimera? Como é que não viu nitidamente a realidade, não a presentiu logo e se deixou enganar, por um falaz idolo, absorver-se nelle, dar-lhe em holocausto toda a sua existencia? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma asneira!

Nada deixava que affirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada de saboroso.