—Que faz o senhor aqui?

Coração dos Outros não teve animo de responder; adivinhava uma scena violenta que elle teria querido evitar; mas Olga adiantou-se:

—Vai acompanhar-me ao Itamaraty, para salvar da norte meu padrinho. Já sabe?

O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suasorios, poderia evitar que a mulher désse passo tão perigoso para os seus interesses e ambições. Falou docemente:

—Fazes mal.

—Porque? perguntou ella com calor.

—Vaes comprometter-me. Sabes que...

Ella, não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grandes olhos cheios de escarneo; mirou-o um, dous minutos; depois, riu-se um pouco e disse:

—É isto! Eu, porque eu, porque eu, é só eu para aqui, eu para ali... Não pensas noutra coisa... A vida é feita para ti, todos só devem viver para ti... Muito engraçado! De forma que eu (agora digo eu tambem) não tenho direito de me sacrificar, de provar a minha amizade, de ter na minha vida um traço superior? É interessante! Não sou nada, nada! Sou alguma coisa como um movel, um adorno, não tenho relações, não tenho amizades, não tenho caracter? Ora!...

Ella falava, ora vagarosa e irónica, ora rapidamente e apaixonada: e o marido tinha diante de suas palavras um grande espanto. Elle vivera sempre tão longe della que não a julgara nunca capaz de taes assomos. Então aquella menina? Então aquelle bibelot? Quem lhe teria ensinado taes cousas? Quiz desarmal-a com uma ironia e disse risonho: