Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lagrimas furtivas.
—Agora, continuou elle, depois de passada a emoção—vamos ao que serve. O boi espacio ou o Bumba meu boi ainda é muita cousa para vocês... É melhor irmos de vagar, começar pelo mais facil... Está ahi o Tangolomango, conhecem?
—Não, disseram os dous.
—É divertido. Arranjem dez crianças, uma mascara de velho, uma roupa estrambolica para um dos Srs. que eu ensaio.
O dia chegou. A casa do General estava cheia. Cavalcanti viera; e elle e a noiva, á parte, no vão de uma janella, pareciam ser os unicos que não tinham interesse pela folia. Elle, falando muito, cheio de trejeitos no olhar; ella, meio fria, deitando de quando em quando, para o noivo, um olhar de gratidão.
Quaresma, foz o Tangolomango, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do General, pôz uma immensa mascara de velho, agarrou-se a um bordão curvo, em forma de baculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram em côro:
Uma mãe teve dez filhos
Todos os dez dentro de um pote:
Deu o Tangolomango nelle
Não ficaram senão nove.
Por ahi, o major avançava, batia com o baculo no assoalho, fazia: hu! hu! hu! as crianças fugiam, afinal elle agarrava uma e levava para dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando, pela quinta estrophe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista, escura e cahiu. Tiraram-lhe a mascara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si.
O accidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo folk-lore. Comprou livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção lhe veiu ao fim de algumas semanas de estudo.
Quasi todas as tradições e canções eram estrangeiras; o proprio Tangolomango o era tambem. Tornava-se, portanto, precizo arranjar alguma cousa propria, original, uma creação da nossa terra e dos nossos ares.