Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar e a ganhar, despediu-se á meia-noite cheio de delicadeza, fez alguns commentarios sobre a partida e não voltou mais.
Conforme o seu velho habito, Coleoni lia de manhã os jornaes, com o vagar e a lentidão de homem pouco habituado á leitura, quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal.
Elle não comprehendeu bem o requerimento, mas os jornaes faziam tanta troça, cahiam tão a fundo sobre a cousa, que imaginou o seu antigo bemfeitor enleiado numa meiada criminosa, tendo praticado, por inadvertencia, alguma falta grave.
Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha, mais dahi quem sabe? Na ultima vez que o visitou elle não veiu com aquelles modos extranhos? Podia ser uma pilheria...
Apezar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre. Havia nelle não só a gratidão de camponez que recebeu um grande beneficio, como um duplo respeito pelo major, oriundo da sua qualidade de funccionario e de sabio.
Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquelle sagrado respeito dos camponezes pelos homens que recebem a investidura do Estado; e, como, apezar dos bastos annos de Brasil, ainda não sabia juntar saber aos titulos, tinha em grande consideração a erudição do compadre.
Não é, pois, de extranhar que elle visse com magna o nome de Quaresma envolvido em factos que os jornaes reprovavam. Leu de novo o requerimento, mas não entendeu o que elle queria dizer. Chamou a filha.
—Olga!
Elle pronunciava o nome da filha quasi sem sotaque; mas, quando fallava portuguez, punha nas palavras uma rouquidão singular, e salpicava as phrases de exclamações e pequenas expressões italianas.
—Olga, que quer dizer isto? Non capisco...