Na ficção, havia unicamente autores nacionaes ou tidos como taes: o Bento Teixeira, da Prosopopéa; o Gregorio de Mattos, o Basilio da Gama, o Santa Rita de Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionaes ou nacionalizados de oitenta p'ra lá faltava nas estantes do Major.

De Historia do Brasil, era farta a messe: os chronistas, Gabriel Soares, Gandavo; e Rocha Pitta, Frei Vicente Salvador, Armitage, Ayres Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschitchte von Brasilien), Mello Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Warnhagen, além de outros mais raros ou menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Stade, o Jean de Lery, o Saint-Hilaire, o Martius, o principe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassis, Couto Magalhães e se encontravam tambem Darwin, Freycinet, Cook, Boungainville e até o famoso Pigafetta, chronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses ultimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.

Alem destes, havia livros subsidiarios: diccionarios, manuaes, encyclopedias, compendios, em varios idiomas.

Vê-se assim que a sua predilecção pela poetica de Porto Alegre e Magalhães não lhe vinha de uma irremediavel ignorancia das linguas literarias da Europa; ao contrario o major conhecia bem soffrivelmente francez, inglez e allemão; e se não falava taes idiomas, lia-os e traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espirito, no forte sentimento que guiava sua vida. Polycarpo era patriota. Desde moço, ahi pelos vinte annos, o amor da patria tomou-o todo inteiro. Não fôra o amor commum, palrador e vasio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições politicas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remedios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.

Não se sabia bem onde nascera, mas não fôra de certo em S. Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quizesse encontrar nelle qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predilecção por esta ou aquella parte de seu pai tanto assim que aquillo que o fazia vibrar de paixão não eram só os Pampas do Sul com o seu gado, não era o café de S. Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a belleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Affonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o impeto de Andrade Neves—era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrellada do Cruzeiro.

Logo aos dezoito annos quiz fazer-se militar; mas a junta de saude julgou-o incapaz. Desgostou-se, soffreu, mas não maldisse a Patria. O Ministerio era liberal, elle se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a terra que o viu nascer. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do Exercito, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar.

Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de kilos de polvora, de nomes de fuzis e termos technicos de artilharia, aspirava diariamente aquelle halito de guerra, de bravura, de victoria, de triumpho, que é bem o halito da Patria.

Durante os lazeres burocraticos, estudou, mas estudou a Patria, nas suas riquezas naturaes, na sua historia, na sua geographia, na sua literatura e na sua politica. Quaresma sabia as especies de mineraes, vegetaes e animaes, que o Brasil continha; sabia, o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras hollandezas, as batalhas do Paraguay, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminencia do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns kilometros ao Nilo e era com este rival do seu rio que elle mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.

Havia um anno a esta parte que se dedicava ao tupy-guarany. Todas as manhãs, antes que a «Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Phebo», elle se atracava até ao almoço com o Montoya, Arte y diccionario de la lengua guarany ó mâs bien tupy, e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo noticia desse seu estudo do idioma tupiniquim, deram não sei sabe porque em chamal-o—Ubirajára. Certa vez, o escrevente Azevedo, ao assignar o ponto, distrahido, sem reparar quem lhe estava ás costas, disse em tom chocareiro: «você já vio que hoje o Ubirajára esta tardando».

Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade, a sua illustração, a modestia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos. Sentindo que o alcunha lhe era dirigido, não perdeu a dignidade, não prorompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concertou o pince-nez, levantou o dedo indicador no ar e respondeu: