—Sr. Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridiculo aquelles que trabalham em silencio, para a grandeza e a emancipação da Patria.

Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do café, quando os empregados deixavam as bancas, transmittir aos companheiros o fructo de seus estados, as descobertas que fazia, no seu gabinete de trabalho, de riquezas nacionaes. Um dia era o petroleo que lera em qualquer parte, como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era um novo exemplar de arvore de borracha que crescia no rio Pardo, em Matto-Grosso; outra, era um sabio, uma notabilidade, cuja bisavó era brasileira; e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela chorographia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegavel, os melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz ás nascentes. Elle amava sobremodo os rios; as montanhas lhe eram indifferentes. Pequenas talvez...

Os collegas ouviam-no respeitosos e ninguem, a não ser esse tal Azevedo, se animava na sua frente a lhe fazer a menor objecção, a avançar uma pilheria, um dito. Ao voltar as costas, porém, vingavam-se da cacetada, cobrindo-o de troças: «Este Quaresma! que cacete! Pensa que somos meninos de tico-tico... Arre! Não tem outra conversa».

E desse modo elle ia levando a vida, metade na repartição, sem ser comprehendido, e a outra metade em casa, tambem sem ser comprehendido. No dia em que o chamaram de Ubirajára, Quaresma ficou reservado, taciturno, mudo, e só veiu a falar porque, quando lavavam, as mãos num aposento proximo á secretaria e se preparavam para sahir, alguem suspirando, disse: «Ah! Meu Deus! Quando poderei ir á Europa»! O major não se conteve: levantou o olhar, concertou o pince-nez e falou fraternal e persuasivo: «Ingrato! Tens uma terra tão bella, tão rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer a minha de principio ao fim!

O outro objectou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major contestou-lhe com estatisticas e até provou exuberantemente que o Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. Era um clima calumniado pelos viciosos que de lá vinham doentes...

Era assim o major Polycarpo Quaresma que acabava de chegar á sua residencia, ás 4 e 15 da tarde, sem erro de um minuto, como todas as tardes, excepto aos domingos, exactamente, ao geito da apparição de um astro ou de um eclypse.

No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aquelles que têm ambições politicas ou de fortuna, porque Quaresma, não as tinha no minimo grau.

Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua bibliotheca, o major abriu um livro e pôz-se a lel-o á espera do conviva. Era o velho Rocha Pitta, o enthusiastico e gongorico Rocha Pitta da Historia da America Portugueza. Quaresma estava lendo aquelle famoso periodo: «Em nenhuma outra região se mostra o céo mais sereno, nem madruga mais bella a aurora; o sol em nenhum outro hemispherio tem os raios mais dourados...» mas não pôde ir ao fim. Batiam á porta. Foi abril-a em pessoa.

—Tardei, major? perguntou o visitante.

—Não. Chegaste á hora.