Acabava de entrar em casa do major Quaresma o Sr. Ricardo Coração dos Outros, homem celebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão. Em começo, a sua fama estivera limitada a um pequeno suburbio da cidade, em cujos saráos elle e seu violão figuravam como Paganini e a sua rabeca em festas de Duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi tomando toda a extensão dos suburbios, crescendo, solidificando-se, até ser considerada como cousa propria a elles. Não se julgue, entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas ahi qualquer, um capadocio. Não; Ricardo Coração dos Outros era um artista a frequentar e a honrar as melhores familias do Meyer, Piedade e Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na casa do Tenente Marques, do Dr. Bulhões ou do seu Castro, a sua presença era sempre requerida, instada e apreciada. O Dr. Bulhões, até, tinha, pelo Ricardo uma admiração especial, um delirio, um frenesi e, quando o trovador cantava, ficava em extase. Gosto muito de canto, dizia o doutor no trem certa vez, mas só duas pessoas me enchem as medidas: o Tamagno e o Ricardo. Esse doutor tinha uma grande reputação nos suburbios, não como medico, pois que nem oleo de ricino receitava, mas como entendido em legislação telegraphica, por ser chefe de secção da Secretaria dos Telegraphos.
Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial o que só é alta nos suburbios. Compõe-se em geral de funccionarios publicos, de pequenos negociantes, de medicos com alguma clinica, de tenentes de differentes milicias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquellas distantes regiões, assim como nas festas e nos bailes, com mais força que a burguezia de Petropolis e Botafogo. Isto é só lá, nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se algum dos seus representantes vê um typo mais ou menos, olha-o da cabeça aos pés, demoradamente, assim como quem diz: apparece lá em casa que te dou um prato de comida. Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia jantar e almoço, muito feijão, muita carne secca, muito ensopado—ahi, julga ella, e que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da distincção.
Fóra dos suburbios, na rua do Ouvidor, nos theatros, nas grandes festas centraes, essa gente mingua, apaga-se, desapparece, chegando até as suas mulheres e filhas a perder a belleza com que deslumbram, quasi diariamente, os lindos cavalheiros dos interminaveis bailes diarios daquellas redondezas.
Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, extravasou e passou á cidade, propriamente. A sua fama já chegava a S. Christovão e em breve (elle o esperava) Botafogo convidal-o-ia, pois os jornaes já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua poetica...
Mas que vinha elle fazer ali, na casa de pessoa de propositos tão altos e tão severos habitos? Não é difficil atinar. De certo, não vinha auxiliar o major nos seus estudos de geologia, de poetica, de mineralogia e historia brasileiras.
Como bem suppoz a vizinhança, o Coração dos Outros vinha ali tão sómente ensinar o Major a cantar modinhas e a tocar violão. Nada mais, e é simples.
De accôrdo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a meditar qual seria a expressão poetico-musical caracteristica da alma nacional. Consultou historiadores, chronistas e philosophos e adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa verdade, não teve duvidas: tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro: e entrar nos segredos da modinha. Estava nisso tudo a quo, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor da cidade e tomou lições com elle. O seu fim era disciplinar a modinha, e tirar della um forte motivo original de arte.
Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas, antes disso, por convite especial do discipulo, ia compartilhar o seu jantar; e fôra por isso que o famoso trovador chegou mais cedo á casa do sub-secretario.
—Já sabe dar o ré sustenido, major? perguntou Ricardo logo ao sentar-se.
—Já.