Que o julgassem doido—vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas affirmações, não! E elle pensava, procurava meios de se rehabilitar, cahia em distracções, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana. Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo dia, e a outra, na preoccupação de provar que sabia o tupy.
O Secretario veiu a faltar um dia e o Major lhe ficou fazendo as vezes. O expediente fôra grande e elle mesmo redigira e copiara uma parte. Tinha começado a passar a limpo um officio sobre cousas de Mato-Grosso, onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã, quando o Carmo disse lá do fundo da sala, com acccento escarninho:
—Homero, isto de saber é uma cousa, dizer é outra.
Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupy que se encontravam na minuta, fosse pela allusão do funccionario Carmo, o certo é que elle insensivelmente foi traduzindo a peça official para o idioma indigena.
Ao acabar, deu com a districção, mas logo vieram outros empregados com o trabalho que fizeram, para que elle examinasse. Novas preoccupações afastaram a primeira, esqueceu-se e o officio em tupy seguiu com os companheiros. O Director não reparou, assignou e o tupinambá foi dar ao ministerio.
Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. Que lingua era? Consultou-se o Dr. Rocha, o homem mais habil da secretaria, a respeito do assumpto. O funccionario limpou o pince-nez, agarrou o papel, voltou-o de traz para diante, pôl-o de pernas para o ar e concluiu que era grego, por causa dos yy.
O doutor Rocha tinha na Secretaria a fama de sabio, porque era bacharel em direito e não dizia cousa alguma.
—Mas, indagou o chefe, officialmente as autoridades se podem communicar em linguas estrangeiras? Creio que ha um aviso de 84... Veja, Sr. Dr. Rocha...
Consultaram-se todos os regulamentos e repertorios de legislação, andou-se de meza em meza pedindo auxilio á memoria de cada um e nada se encontrara a respeito. Enfim, o Dr. Rocha, após tres dias de meditação, foi ao chefe e disse com emphase e segurança:
—O aviso de 84 trata de orthographia.