V
O BIBELOT
Não era a primeira vez que ella vinha ali. Mais de uma dezena já subira aquella larga escada de pedra, com grupos de marmores de Lisboa de um lado e do outro, a Caridade e N. S. da Piedade; penetrara por aquelle portico de columnas doricas, atravessara o atrio ladrilhado, deixando á esquerda e á direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o angustioso mysterio da loucura; subira outra escada encerada cuidadosamente e fôra ter com o padrinho lá em cima, triste e absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia ás vezes, aos domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando Quaresma. Ha quanto tempo estava elle ali? Ella não se lembrava ao certo; uns tres ou quatro mezes, se tanto.
Só o nome da casa mettia medo. O Hospicio! É assim como uma sepultura em vida, um semi-enterramento, enterramento do espirito, da razão conductora, de cuja ausencia os corpos raramente se resentem, A saude não depende della e ha muitos que parecem até adquirir mais força de vida, prolongar a existencia, quando ella se evola não se sabe por que orificio do corpo e para onde.
Com que terror, uma especie de pavor de cousa sobrenatural, espanto de inimigo invisivel e omnipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte, diziam.
No primeiro aspecto, não se comprehendia bem esse pasmo, esse espanto, esse terror do povo por aquella casa immensa, severa e grave, meio hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janellas gradeadas, a se extender por uns centos de metros, em face do mar immenso e verde, lá na entrada da bahia, na praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns homens calmos, pensativos, meditabundos, como monges em recolhimento e prece.
De resto, com aquella entrada silenciosa! clara e respeitavel, perdia-se logo a idéa popular da loucura; o escarcéo, os trejeitos, as furias, o entrechoque de tolices ditas aqui e ali.
Não havia nada disso; era uma calma, um silencio, uma ordem perfeitamente naturaes. No fim, porém, quando se examinavam bem, na sala das visitas, aquellas faces transtornadas, aquelles ares aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheiados e mergulhados em um sonho intimo sem fim, e via-se tambem a excitação de uns, mais viva em face á atonia de outros, é que se sentia o horror da loucura, o angustioso mysterio que encerra, feito não sei de que inexplicavel fuga do espirito daquillo que se suppõe o real, para se apossar e viver das apparencias das cousas ou de outras apparencias das mesmas.
Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifravel da nossa propria natureza, fica amedrontado, sentindo que o germen daquillo está depositado em nós e que por qualquer cousa elle nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora comprehensão inversa e absurda, de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não ha mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que elle vem a ser após.
E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quasi nunca acaba. Com o seu padrinho, como fôra? A principio, aquelle requerimento... Mas que era aquillo? Um capricho, uma fantasia, cousa sem importancia, uma idéa de velho sem consequencia. Depois, aquelle officio? Não tinha importancia, uma simples distracção, cousa que acontece a cada passo... E emfim? A loucura declarada, a tôrva e ironica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos rebaixa... Emfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de não sahir, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os amigos, os melhores. Como fôra doloroso aquillo? A primeira phase do seu delirio, aquella agitação desordenada, aquelle falar sem nexo, sem accordo com que se realizava fóra delle e com os actos passados, um falar que não se sabia donde vinha, donde sahia, de que ponto do seu ser tomava nascimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um cataclysma, que o fazia tremer todo, desde os pés á cabeça, e enchia-o de indifferença para tudo mais que não fosse o seu proprio delirio.
A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam á matroca. Para elle, nada disso valia, nada disso tinha existencia e importancia. Eram sombras, apparencias; o real eram os inimigos, os inimigos terriveis cujos nomes o seu delirio não chegava a criar. A velha irmã, atarantada, atordoada, sem direcção, sem saber que alvitre tomar. Educada em casa sempre com um homem ao lado, o pai, depois o irmão, ella não sabia lidar com o mundo, com negocios, com as autoridades e pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiencia e ternura de irmã, oscillava entre a crença de que aquillo fosse verdade e a suspeita do que fosse loucura pura e simples.