Os dous afastaram-se tristes, levando n'alma um pouco daquella humilde dôr.
O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a face do mar em pequenas ondas brancas. O Pão de Assucar erguia-se negro, hirto, solemne, das ondas espumejantes, e como que punha uma sombra no dia muito claro.
No Instituto dos Cégos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada do instrumento parecia sahir daquellas cousas todas, da sua tristeza e da sua solemnidade.
O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no largo da Carioca. É bom ver-se a cidade nos dias de descanço, com as suas lojas fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os passos resoam como em claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto, faltam-lhes as carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e gente. Na porta de uma loja ou outra, os filhos do negociante brincam em velocipedes, atiram bolas e ainda mais se sente a differença da cidade do dia anterior.
Não havia ainda o habito de procurar os arrabaldes pittorescos e só encontravam, por vezes, casaes que iam apressadamente a visitas, como elles agora. O largo de S. Francisco estava silencioso e a estatua, no centro daquelle pequeno jardim que desappareceu, parecia um simples enfeite. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse á casa de Quaresma. Lá foram. A tarde se approximava e as toilettes domingueiras já appareciam nas janellas. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou cigarros; grupos de caixeiros com flores estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas anti-deluvianas ao lado de vestidos pesados de setim negro, envergados em corpos fartos de matronas sedentarias; e o domingo apparecia assim decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a ostentação dos tolos.
D. Adelaide não estava só. Ricardo viera visital-a e conversavam. Quando o compadre de seu irmão bateu no portão, elle contava á velha senhora o seu ultimo triumpho:
—Não sei como ha de ser, D. Adelaide. Eu não guardo as minhas musicas, não escrevo—é um inferno!
O caso era de pôr um autor em maus lençóes. O Sr. Paysandon, de Cordova (Republica Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade, lhe tinha escripto, pedindo exemplares de suas musicas e canções. Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escriptos, mas a musica não. É verdade que as sabia de cór, porém, escrevel-as de uma hora para outra era trabalho acima de sua força.
—É o diabo! continuou elle. Não é por mim; a questão é que se perde uma occasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro.
A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A sua educação que se fizera, vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida, não podia admittir que elle preoccupasse a attenção de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, supportava a mania de Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima pelo famoso trovador dos suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela dedicação com que elle se houve no seu drama familiar. Os pequenos serviços e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo de Ricardo, que os desempenhara com boa vontade e diligencia.