Quaresma esperou o trem. Elle chegou arfando e se extirando como um reptil pela estação afóra á luz forte do sol no poente. Não se demorou muito. Apitou de novo e sahiu a levar noticias, amigos, riquezas, tristezas por outras estações além. O Major pensou ainda um pouco como aquillo era bruto e feio, e como as invenções do nosso tempo se afastam tanto da linha imaginaria da belleza que os nossos educadores de dous mil annos atrás nos legaram. Olhou a estrada que levava á estação. Vinha um sujeito... Dirigia-se para a sua casa... Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que caminhava com pressa... Quem era? Aquelle chapéo dobrado, como um morrião... Aquelle fraque comprido... Passo miudo... Um violão! Era elle!

—Adelaide está ahi o Ricardo.

II
ESPINHOS E FLORES

Os suburbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em materia de edificação de cidade. A topographia do local, caprichosamente montuosa, influiu de certo para tal aspecto, mais influiram, porém, os azares das construcções.

Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Ha algumas dellas que começam largas como «boulevards» e acabam estreitas que nem viellas; dão voltas, circuitos inuteis e parecem fugir ao alinhamento recto com um odio tenaz e sagrado.

Ás vezes se succedem na mesma direcção com uma frequencia irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervallo coheso e fechado de casas. Num trecho, ha casas amontoadas umas sobre outras numa angustia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.

Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Ha casas de todos os gostos e construidas de todas as formas.

Vai-se por uma rua a ver um correr de «chalets», de porta e janella, parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma casa burgueza, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezzaninos gradeados. Passada essa surpreza, olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau a pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e columnas de estylo pouco classificavel, que parece vexada e querer occultar-se, diante daquella onda de edificios disparatados e novos.

Não ha nos nossos suburbios cousa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades européas, com as suas villas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamisadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aquelles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os ha, são em geral pobres, feios e desleixados.