Os cuidados municipaes tambem são variaveis e caprichosos. Ás vezes, nas ruas, ha passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de communicação são calçadas e outras da mesma importancia estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre um rio secco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguella de trilhos mal juntos.
Ha pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; ha operarios de tamancos; ha peralvilhos á ultima moda: ha mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quasi sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.
Alem disto, os suburbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidemico e no espiritismo endemico; as casas de commodos (quem as supporia lá!) constituem um delles bem inedito. Casas que mal dariam para uma pequena familia, são divididas, subdivididas, e os minusculos aposentos assim obtidos, alugados á população miseravel da cidade. Ahi, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miseria paira com um rigor londrino.
Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita taes caixinhas. Além dos serventes de repartições, continuos de escriptorios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros, compradores de garrafas vasias, castradores de gatos, cães e gallos, mandingueiros, catadores de hervas medicinaes, emfim, uma variedade de profissões miseraveis que as nossas pequena e grande burguezias não podem adivinhar. Ás vezes num cubiculo desses se amontoa uma familia, e ha occasiões que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta da nickel do trem.
Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de commodos de um dos suburbios. Não era das sordidas, mas era uma casa de commodos dos suburbios.
Desde annos que elle a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma collina, olhando a janella do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. Vistos assim do alto, os suburbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de azul, de branco, de óca, engastadas nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira, alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho das ruas põe no panorama um sabor do confusão democratica, de solidariedade perfeita entre as gentes que as habitam; e o trem minusculo, rapido, atravessa tudo aquillo, dobrando d esquerda, inclinando-se para a direita, muito flexivel nas suas grandes vertebras de carros, como uma cobra entre pedrouços.
Era daquella janella que Ricardo, espraiava as suas alegrias, as suas satisfações, os seus triumphos e tambem os seus soffrimentos e maguas.
Ainda agora estava elle lá, debruçado no peitoril, com a mão em concha no queixo, colhendo com a vista uma grande parte daquella bella, grande e original cidade, capital de um grande paiz de que elle a modos que era e se sentia ser, a alma, consubstanciando os seus tenues sonhos e desejos em versos discutiveis, mas que a plangencia do violão, se não lhes dava sentido, dava um que de balbucio, de queixume dorido da patria criança ainda, ainda na sua formação...
Em que pensava elle? Não pensava só, soffria tambem. Aquelle tal preto continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma cousa, e tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival delle, Ricardo; outros já affirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros, e alguns mais—ingratos!—já esqueciam os trabalhos, o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em pról do levantamento da modinha e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro.
Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infancia, daquella sua aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido dos vitellos. E o queijo? Aquelle queijo tão substancial, tão forte, feio como aquella terra, mas feraz como ella tanto que bastava comer delle uma pequena fatia para se sentir almoçado... E as festas? Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o Maneco Borges, não lhe predissera o futuro: «Irás longe, Ricardo. A viola quer teu coração».