Por que então aquelle encarniçamento, aquelle odio contra elle—elle que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma, o suco, a substancia do paiz!

E as lagrimas lhe saltaram quentes dos olhos afóra. Olhou um pouco as montanhas, farejou o mar lá longe... Era bella a terra, era linda, era magestosa, mas parecia ingrata e aspera no seu granito omnipresente que se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das arvores.

E elle estava ali só, só com a sua gloria e o seu tormento, sem amor, sem confidente, sem amigo, só como um deus ou como um apostolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova.

Soffria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse aquellas lagrimas que iam cahir no solo indifferente. Por ahi, lembrou-se dos famosos versos: Se choro... bebe o pranto a areia ardente...

Com a lembrança, elle baixou um pouco o olhar á terra e viu que no tanque da casa, um tanto escondida delle, uma rapariga preta lavava. Ella abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso, ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro á pedra, e recomeçava. Teve pena daquella pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua côr. Veiu-lhe um afflux de ternura e, depois, poz-se a pensar no mundo, nas desgraças, ficando um instante enleiado no enigma do nosso miseravel destino humano.

A rapariga não o viu, distrahida com o trabalho; e se pôz a cantar:

Da doçura dos teus olhos
A brisa inveja já vem

Era delle. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquella pobre mulher, abraçal-a...

E como eram as cousas? Elle recebia lenitivo daquella rapariga; era a sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então á memoria aquelles versos do padre Caldas, esse seu antecessor feliz que teve um auditorio de fidalgas:

Lereno alegrou os outros
E nunca teve alegria...