Enfim era uma missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se pôde conter:

—Vai bem, D. Alice, vai bem! Se não fosse porque eu lhe pedia bis.

A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:

—Não sabia que o senhor estava ahi, senão não cantava na vista do senhor.

—Qual o que! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante.

—Deus me livre! Para o senhor me criticar...

Embora insistisse muito, a rapariga não quiz continuar. As maguas pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Veiu ao interior do quarto e pôz-se á meza na tenção de escrever.

O seu quarto tinha o mobiliario mais reduzido possivel. Havia uma rede com franjas de rendas, uma mesa de pinho, sobre ella objectos de escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a uma parede o violão na sua armadura de camurça. Havia tambem uma machina para fazer café.

Sentou-se e quiz começar uma modinha sobre a Gloria, essa cousa fugace, que se tem e se pensa que não se tem, alguma cousa impalpavel, incolhivel como um sopro, que nos alancêa, queima, inquieta e abraza como o Amor.

Tentou começar, dispoz o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido forte, toda a sua natureza tinha sido lavrada, baralhada, com a idéa daquelle furto que se queria fazer ao seu merito. Não conseguiu assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a musica zumbir no ouvido.