A manhã ia alta. As ciganas defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado; começava a esquentar e o céo estava de um azul ligeiro, tenue, fino. Quiz sahir, procurar um amigo, espairecer com elle, mas quem? Ainda, se o Quaresma... Ah! O Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe conforto e consolo.
É verdade que ultimamente esse seu amigo achava-se pouco interessado pela modinha; mas assim mesmo comprehendia o seu proposito, os fins e o alcance da obra a que elle, Ricardo, se propunha. Ainda se o Major estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava a dous mil réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria. Bateram á porta. Traziam-lhe uma carta. Não reconheceu a letra; rasgou o envelope com emoção. Que seria? Leu:
«Meu caro Ricardo—Saude—Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã, quinta-feira. Ella e o noivo fazem muito gosto que V. appareça. Se o amigo não estiver compromettido com alguem, agarre o violão e venha até cá tomar uma chavena de chá comnosco—Seu amigo Albernaz».
O trovador, á proporção que lia, ia mudando de physionomia. Até então estava carregada e dura: quando acabou de ler o bilhete, um sorriso brincava por toda ella, descia e subia, ia de uma face a outra. O General não o abandonara; para o respeitavel milhar, Ricardo Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Iria e arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco o violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um idolo bemfazejo.
Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o ultimo brinde havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos grupos. D. Maricota vestia seda malva e o seu busto curto parecia ainda mais abafado, mais socado, naquelle tecido caro que parece requerer corpos elegantes e flexiveis. Quinota estava radiante no vestido de noiva. Ella era alta, de feições mais regulares que a irmã Ismenia, mas menos interessante e mais commum de temperamento e alma, embora faceira. Lalá a terceira filha do General, que já se ageitava a moça, tinha muito pó de arroz, estava sempre a concertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado. Genelicio dava o braço á noiva, encasacado numa casaca mal talhada, que punha bem á mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz.
Ricardo não os viu passar, pois ao entrar, a fila estava no General, mettido num segundo uniforme dos grandes dias, que lhe ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem tinha um ar importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o Contra-Almirante Caldas. Fôra padrinho e estava irreprehensivel na sua casaca do uniforme. As ancoras reluziam como metaes de bordo em hora de revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e pareciam desejar com ardôr os grandes ventos do vasto oceano sem fim. Ismenia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente, com o seu vagar, com os seus gestos lentos, dando providencias. O Lulú, o unico filho do General, impava no seu uniforme do Collegio Militar, cheio de dourados e cabellos, tanto mais que passara de anno, graças aos empenhos do pai.
O General não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse um—sou muito feliz...—deitando a cabeça de lado e sorrindo para o chão, sorriso que encheu de immenso transporte a candida alma do menestrel.
Deram começo as dansas e o General, o Almirante, o Major Innocencio Bustamante, que tambem viera de uniforme, com a sua banda roxa de honorario, o Dr. Florencio, Ricardo e dous convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco.
O General estava satisfeito. Sonhava ha tantos annos uma cerimonia daquellas em sua casa e emfim pela primeira vez via realizado esse anceio.
A Ismenia foi aquella desgraça... O ingrato?... Mas para que recordar?