Sentaram-se á mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de crystal e serviu dous calices de paraty.
—É do programma nacional, fez a irmã, sorrindo.
—De certo, e é um magnifico aperitivo. Esses vermutes por ahi, drogas! Isto é alcool puro, bom, de canna, não é de batatas ou milho...
Ricardo agarrou o calice com delicadeza e respeito, levou-o aos labios e foi como se todo elle bebesse o licor nacional.
—Está bom, hein? indagou o major.
—Magnifico, fez Ricardo, estalando os labios.
—É de Angra. Agora tu vais ver que magnifico vinho do Rio Grande temos... Qual Borgonha! Qual Bordeaux? Temos no Sul muito melhores...
E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os productos nacionaes: a banha, o toucinho e o arroz; a irmã fazia pequenas objecções e Ricardo dizia: «é, é, não, ha duvida»—rolando nas orbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no cabello aspero, forçando muito a sua physionomia meuda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.
Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem uma flôr... Certamente não se podia tomar por tal miseros beijos de frade, palmas de Santa Rita, quaresmas luctulentas, manacás melancolicos e outros bellos exemplares dos nossos campos e prados. Como em tudo o mais, o Major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada de rosas, de chrysanthemos, de magnolias—flôres exoticas; ás nossas terras tinham outras mais bellas, mais expressivas, mais olentes, como aquellas que elle tinha ali.
Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala, quando o crepusculo vinha de vagar, muito vagaroso e lento, como si fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas cousas a sua poesia dolente e a sua deliquescencia.