Mal foi accesso o gaz, o mestre de violão empunhou o instrumento, apertou as cravelhas, correu a escala, abaixando-se sobre elle como se o quizesse beijar. Tirou alguns accordes, para experimentar; e dirigiu-se ao discipulo, que já tinha o seu em posição:
—Vamos ver. Tire a escala, major.
Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas não havia na sua execução nem a firmeza, nem o dengue com que o mestre fazia a mesma operação.
—Ohe, major, é assim.
E mostrava a posição do instrumento, indo do collo ao braço esquerdo extendido, seguro levemente pelo direito; e em seguida accrescentou:
—Major, o violão é o instrumento da paixão. Preciza de peito para falar... É preciso encostal-o, mas encostal-o com macieza e amor, como se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos...
Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo elle fremindo de paixão pelo instrumento desprezado.
A lição durou uns cincoenta minutos. O major sentiu-se cansado e pediu que o mestre cantasse. Era a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse pedido; embora lisongeado, quiz a vaidade profissional que elle, a principio, se negasse.
—Oh! Não tenho nada novo, uma composição minha.
D. Adelaide obtemperou então: