Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquillo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações pela manhã... Elle tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar máos momentos; os enthusiasmos delle, entretanto, junto á vontade de ser bom amigo, podiam illudil-o e fazel-o instrumento de algum perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve, porém, esqueceu-se e a preoccupação dissipou-se. Á tarde, quando foi jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de cogitações por parte delle.
D. Adelaide, sempre com a sua matinée creme e saia preta, sentava-se á cabeceira; Quaresma á direita e á esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a lingua do trovador.
—Gostou muito do passeio, Sr. Ricardo?
Não havia meio della dizer seu. A sua educacão de senhora de outros tempos, não lhe permittia usar esse plebeismo generalizado. Vira os pais, gente ainda fortemente portugueza, dizer senhor e continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente.
—Muito. Que logar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é que se tem inspiração.
—E elle tomava aquella altitude de arroubo: uma physionomia de mascara de tragico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada abafada.
—Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.
—Hoje acabei uma modinha.
—Como se chama? indagou D. Adelaide.
—«Os labios da Carola».