CARTA SEGUNDA.
SUMARIO.
Danos que resultam da-Gramatica Latina, que comumente se-ensina. Motivos porque nas-escolas de Portugal, nam se-melhora de metodo. Nova ideia de uma Gramatica Latina facilisima, com que, em um ano, se-pode aprender fundamentalmente Gramatica &c.
Despois do-estudo da-Gramatica Vulgar, segue-se o da-Latina. e desta direi a V.P. o meu parecer, na prezente carta. Quando entrei neste Reino, e vi a quantidade de Cartapacios, e Artes, que eram necesarias, para estudar somente a Gramatica; fiquei pasmado. Falando com V. P. algumas vezes, me-lembro, que lhe-toquei este ponto: e que nam lhe dezagradáram as minhas reflexoens, sobre esta materia. Sei, que em outras partes, onde se-explica a Gramatica de Manoel Alvares, tambem lhe-acrecentam algum livrinho: mas tantos como em Portugal, nunca vi. As declinasoens dos-Nomes, e Verbos estudam, pola Gramatica Latina. a esta se-segue um Cartapacio Portuguez, de Rudimentos. despois outro, para Generos, e Preteritos, muito bem comprido. a este um de Sintaxe, bem grande. despois um livro, a que chamam Chorro: e outro, a que chamam Promtuario: polo qual se-aprendem os escolios de Nomes e Verbos. e nam sei que mais livro á. E parece-lhe a V. P. pouca materia de admirasam, quando tudo aquilo se-pode compreender, em um livrinho em 12.o e nam mui grande? Despois diso ouvi dizer, que ocupavam seis, e sete anos estudando Gramatica: e que a maior parte destes dicipulos, despois de todo ese tempo, nam era capaz de explicar por-si só, as mais facis cartas de Cicero. Confeso a V. P. que nam intendi isto, nem donde proviese o dano. Alguns sugeitos, bem inteligentes de politica, me-deram algumas razoens, que nam pareciam inverosimeis. Mas eu, sem aprovar, ou reprovar alguma delas, e tambem sem me-demorar com esta materia; discorrerei sobre o merecimento da-Gramatica Latina; e sobre o modo, com que se-deve aprender.
Ora convem todos os omens de bom juizo, e que tem visto paizes Estrangeiros, e lido sobre isto alguma coiza; convem, digo, que qualquer Gramatica de uma lingua, que nam é nacional, se-deve explicar na lingua, que um omem sabe. Se V.P. quizese aprender Grego, e para este efeito lhe-desem uma Gramatica toda Grega, e um mestre que somente faláse Grego; poderia, à forsa de acenos, vir a intender alguma palavra; mas nam serîa posivel, que aprendese Grego: o mesmo sucederia, em qualquer outra lingua estrangeira. e se algum ateimase, que somente daquela sorte, se-podia aprender Grego, diriamos, que era louco. Pois suponha V.P. que estamos no-cazo. É coiza digna de admirasam, que muitos omens deste Reino, queiram aprender Francez, Tudesco, Italiano, de uma sorte, e o Latim de outra muito diferente. Aprendem aquelas linguas com um mestre, que as-fala ambas, e explica a lingua incognita, por-meio daquela que eles conhecem e falam: e com uma só Gramatica se-poem em estado, de intenderem os autores bem, e, junto com o exercicio, de falarem Francez correntemente. E tomára que me-disesem, porque nam se-deve praticar o mesmo, no-Latim: e porque razam se-aja de carregar, a memoria dos-pobres estudantes, com uma infinidade de versos Latinos, e outras coizas, que nam servem para nada neste mundo? Chega este prejuizo a tal extremo, que o P. Bento Pereira, escreveo uma Ortografia Portugueza, em Latim. Desorteque quem nam intende Latim, segundo o dito P., nam pode escrever corretamente Portuguez.
Os defensores deste metodo, nam alegam outra razam mais, que serem os versos, mais facis de se-conservarem na memoria: e que em todo o tempo, a eles se-pode recorrer, para ter prezentes as regras. Mas esta razam, é pueril, e ridicula. Primeiramente se alguma coiza valèse, deveria praticar-se com versos Portuguezes: porque só eses intendem os estudantes. E qual é o estudante que intende, os versos Latinos das-regras, principalmente sendo tam embrulhados, como os do-P. Manoel Alvares? O certo é, que proguntando eu a alguns rapazes, a explicasam deles, nenhum ma-soube dar. E eisaqui temos, que para os rapazes, nam servem os tais versos. Se pois falamos dos-omens adiantados, estes sabem Latim, polo exercicio de ler, escrever, e falar: comque nam tem necesidade, de recorrer a semelhantes regras. E se querem examinar, alguma dificuldade de Gramatica, vam consultar os Criticos, que as explicam: nam as simplezes Gramaticas, que nem menos as-tocam: e talvez establecem principios, contrarios à mesma solusam.
Finalmente a Gramatica Latina para os Portuguezes, deve ser em Portuguez. E isto parece quiz dizer o P. Manoel Alvares, na advertencia que faz aos mestres, no-fim das-declinasoens dos-Verbos[16]. aindaque ele praticase o contrario, do-que aconselha: pois deveria, nam ter dado o exemplo, introduzindo uma Gramatica puramente Latina. A outra coiza que se-deve reprovar é, que obriguem os rapazes, a aprender trez sortes de regras: em verso, em proza Latina, e em proza Vulgar: como adverte bem o dito Padre. Isto, quando nam lhe-queiramos dar outro nome, é perder tempo, sem utilidade, e com prejuizo grande: sem aver outra razam, que seguir um costume envelhecido, aindaque prejudicial. Mas o que mais me-admirou neste particular, e claramente me-mostrou, quanto pode nos-Omens a preoccupasam dos-primeiros estudos, foi, ver que o Sargentomór Manoel Coelho, que parecia ser mais alumiado nestas materias, pertendendo distinguir-se do-Comum, dando aos principiantes, uma facil explicasam das-oito partes da-orasam; ainda asim caie na simplicidade, de pòr primeiro a regra em Latim para um rapaz, que ainda nam tem noticia da-dita lingua; mas que aprende os primeiros elementos. Tal é a forsa de um mao costume, que cega ainda aqueles, que querem dezembrulhar-se dele! Esta reflexam é sustancial: mas ainda á outras de maior momento. Entremos bem dentro na Gramatica.
Toda a Gramatica Latina se-reduz a explicar, a natureza, e acidentes das-oito vozes, que podem entrar na orasam ou discurso: e o modo de as-unir, e compor os periodos. E isto deve-se fazer com a maior clareza, e mais breves regras, que se puderem excogitar. O que certamente nam se-consegue com a Gramatica uzual: porque nam á coiza mais confuza, nem mais cheia de excesoens, que a dita Gramatica, como todos vem.
O mundo estava mui falto de noticias, e de metodo, antes do-seculo pasado. Desde o restablecimento das-letras Umanas na Europa, direi melhor, no-Ocidente, que podemos fixar nos-principios do-seculo XV. melhor direi, desde a invensam da-Imprensa no-meio do-dito seculo; até o fim do-XVI. nam tiveram os omens tempo de cuidar, em dar metodo proprio às Letras, e Ciencias. Nam fizeram pouco aqueles primeiros doutos, em procurar manuscritos, e impremir os antigos autores, mais corretamente que pudese ser. Achamos alguns, no-fim do-XV. e no-XVI. seculo, que foram letrados à forsa de estudo, mas nam de metodo. Temos tambem alguns omens, que souberam bem Latim nese seculo, porque liam muito polos bons autores: nam porque tivesem achado a chave, de ir para diante com facilidade, e explanar as dificuldades de Gramatica, aos estudantes. Finalmente esa gloria estava rezervada, para o seculo XVII. Os pasados seguiam uns a outros, sem mais eleisam, que o costume. viam, e estudavam com os olhos, e juizo alheio. Mas no-principio do-seculo XVII. aparecèram alguns, que quizeram servir-se do-proprio: e foi-lhes facil, conhecer os erros dos-antecedentes, porque eram grandes. Asim se-abrîram os olhos ao mundo, em todo o sentido. um conhecimento facilitou outro. e eisaqui aberta a porta ao metodo. De-me V. P. omens, que queiram examinar as materias com razam; que nam inculquem um autor, porque seus mestres lho-diseram, mas porque é digno de seguir-se; que eu lhe-prometo, adiantamento nas Ciencias todas. A seu tempo discorrerei das-outras: agora continuemos com a Gramatica.
Tinha no-tempo do-Concilio de Trento o douto Julio Cezar Escaligero, comesado a examinar a Latinidade, seguindo o exemplo, e lumes do-famozo Agostinho Saturnio; o qual tinha ja notado varios erros, nos-outros Gramaticos. Escaligero, dando um paso adiante, publicou um livro, com o titulo = De Caussis Linguæ Latinæ: em que doutisimamente expoem o seu sentimento, sobre os elementos da-Gramatica: mas nam toca a construisam das-Partes. A leitura deste livro, abrio os olhos a Francisco Sanches, que era um profesor celebre de letras Umanas, na Universidade de Salamanca. Este douto empreendeu no-seguinte seculo, com o mesmo titulo, a explicasam da-construisam das-partes daorasam: e com tanta felicidade, que descobrio as verdadeiras cauzas, até àquele tempo ignoradas. Este livro incontrou em Salamanca, e trouxe para Roma,[17] nos-principios do-seculo pasado, o famozo Gaspar Scioppio, Conde de Claravale, de nasam Tudesca: aquele grande omem em letras Sagradas e Profanas; e que empregou toda a sua vida, em estudos gramaticos. O livro de Sanchez fez todo o efeito, que podia esperar-se. Scioppio (que nam costumava dizer bem, daquilo que o-nam-merecia; antes, polos seus inimigos, é tachado, como censor dezumano) cedendo à evidencia das-razoens, proseguio o mesmo metodo de Sanches: ilustrou, e reformou a sua doutrina: e compoz a primeira Gramatica, que apareceo segundo os tais principios. No-mesmo tempo o famozo Gerardo Joam Vossio em Olanda, tam benemerito das-letras Umanas, e Sagradas, explicou ainda melhor o dito metodo; seguindo em tudo Sanches, e Scioppio; os quais ou copeia, ou ilustra.